terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Tchaikovsky - Nutcracker,

SÉRIE ÓPERA E BAILADO


Bailado "O Quebra-nozes" (Nutcracker ).
Acrílico sobre tela 70x100cm

“Festa da alta burguesia, na qual a pequena Clara, irmã de Fritz, filhos do casal Sthalbaum, recebe do padrinho, Herr Drosselmeyer, um quebra-nozes com a forma de boneco. Durante a festa, o padrinho entretém com mágicas e danças. Terminada a festa, enquanto todos dormiam, Clara volta à sala, junto à árvore de Natal, para ver o seu presente. Ela adormece e sonha que um exército de ratos está invadindo a sala. O Quebra-nozes ataca os ratos, comandando um exército de soldadinhos de chumbo”.
Estas palavras que resumem a história deste bailado, baseado no conto “The Nutcracker and the King of Mice” escrito por E.T.A. Hoffman, com música de Tchaikovsky, estão escritas à volta da tela...
De acordo com o espírito do conto e das encenações clássicas do bailado, utilizei cores puras, de que me servi para sugerir as diversas figuras que povoam a história.
Este é sem dúvida o bailado que mais me comove, ainda hoje. Está ligado ao culminar de alguns anos de esforços, para não faltar às aulas de ballet. Há 25 anos estava sentado na 1.ª fila do teatro onde ia ter lugar uma apresentação única e inesquecível: as minhas filhas Dulce e Elsa, iam dançar o Quebra-nozes, o bailado que pela sua estética, concepção e história, se tornou um clássico tradicional da época natalícia.
Não sei se dançaram bem ou mal: uma névoa toldava-me os olhos e não me deixava ver com nitidez o que se passava no palco. Lembro-me de estar a rir às gargalhadas, porque a mais pequena, de vez em quando, começava os seus passos ligeiramente atrasada, interessadíssima que estava em qualquer pormenor do seu lindo vestido, ou a ver o que se passava nos bastidores...
Espero que gostem!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

HARÉM


Harém Óleo sobre tela 70x80cm

Hoje quero apresentar-lhes, Rocky, um macho adulto da raça Rottweiler, e as suas companheiras Bianca e Chippie, da raça Husky siberiana. Rocky é, como os seus antepassados oriundo da região de Rottweil, na Alemanha, um defensor dos seus amos e das suas propriedades, com grande disponibilidade para a brincadeira e o trabalho. As suas companheiras, são completamente diferentes no seu comportamento: Bianca, de frente para a câmara, é uma fêmea chefe de matilha, que se lhe derem uma oportunidade, desaparece, levando consigo, Chippie, que segue fielmente a sua líder.
Para esta composição, foram tiradas algumas dezenas de fotos, com os cães isolados ou interagindo. No conjunto, parece-me estar retratada a personalidade de cada um dos animais: Rocky, macho dominante, a vigiar as companheiras, Bianca, chefe de matilha, a olhar desafiadora para a câmara e Chippie, a doce...
Feitas as apresentações, quero chamar a atenção para um pormenor que penso fazer toda a diferença. A tela, apesar de bastante povoada, dá a sensação de espaço, essencial para que os elementos que interessam, os cães, respirem livremente. A grande mancha verde da relva na parte inferior do quadro, foi para o observador ficar com essa impressão. Sobre as cores e contrastes, julgo que já sabem tanto como eu...
Costuma dizer-se que os cães são o reflexo dos seu donos. Estou inteiramente de acordo, mas sobre esse assunto falarei num momento mais oportuno.
Será daqui a alguns meses...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008


Lírios de Van Gogh, 1889, pormenor
Óleo sobre tela, 71x93cm

História de uma paixão
Em fins de Abril de 1997, recebi em minha casa um convite, acompanhado de um desdobrável com fotografias de artistas como Françoise Sagan, Frank Sinatra, Sofia Loren, Roger Moore, Arnold Schwartzenegger, em frente de reproduções de grandes obras, dos maiores mestres da pintura, para assistir á inauguração da exposição do Museu Imaginário, num hotel de Lisboa.


O convite

No dia 5 de Maio de 1997, às 19:30, estava a aproximar-me da sala onde se realizava o cocktail de apresentação e, de repente, o meu cérebro, por muito que eu teimasse, recusava-se a apreender o que os meus olhos viam: Os Lírios de Van Gogh, estavam à minha frente, ao alcance de um abraço. Caí em mim: era “apenas” uma reprodução, feita por um mestre de pintura, com as tintas de que os pintores dispunham na época... Lá atrás, estava o certificado de “Falsi D´Autore”, para tirar qualquer dúvida...
Na sala, falsificações verdadeiras de Modigliani, Cézanne, Gauguin, Renoir, Corot, Manet... e de alguns pintores portugueses como Malhoa, João Vaz ou Columbano. Um verdadeiro festim...

Frente

Verso

Na altura, apesar da minha pouca experiência, como pintor, já notava umas “pequenas” diferenças... mas a concentração em tão pequeno espaço de tantas obras-primas, era suficiente para manter a euforia que sentira, ao entrar na sala dos sonhos.
Imaginem agora, o que senti quando visitei o Museu Thysen-Bornemisa em Madrid, por ocasião duma exposição temporária de impressionistas, post-impressionistas e expressionistas... em que pontificavam não sei quantos Van Gogh, a sério!


Lírios de António Tapadinhas, pormenor
Óleo sobre tela 71x93cm

Nesta minha reprodução dos Lírios, só tenho a fotografia que vos mostro, em que faltam 5 a 10cm, da parte inferior da tela. É algo que eu não posso corrigir, porque não sei quem me comprou este quadro... Não tenho registo de muitas obras dos meus primeiros tempos de pintor.
Já aconteceu, que um cidadão espanhol que me comprou meia dúzia de telas numa exposição, enquanto esperava pelo táxi no aeroporto de Barcelona, distraiu-se, e algum apreciador do alheio, roubou-lhe o embrulho que continha os quadros. Não sei se o ladrão era apreciador de arte... O mais certo, é que nalguma obscura galeria de Barcelona (atenção Jorge), estejam para venda umas paisagens da cidade de Barreiro, com a assinatura de um pintor português, conhecido na sua rua - A. Tapadinhas.
Regressando à reprodução.
As minhas cores estão mais vivas, porque sei que há cores que vão perdendo intensidade com o decorrer do tempo. Para apreciar a diferença, é ver a comparação das cores actuais, depois da sua restauração, dos frescos de Miguel Angelo, na Capela Sistina. Quando lá estive, a restauração ainda não estava concluída mas já dava para ver que a intensidade das cores tinha alterações abissais.
Mais uma vez, notar que os azuis fortes, violáceos, têm como fundo os seus complementares amarelos e laranjas, e por baixo dos diversos verdes, espreitam os tons da terra avermelhada... As cores parecem nascer do interior das próprias flores... E aquele lírio branco... é obra divina!
Aqui para nós, já utilizei algumas vezes o lírio branco, pintado em tela ou papel, para oferecer em ocasiões especiais. Por enquanto, Van Gogh ainda não protestou... e as minhas amigas também não!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

BIBLIOTECA


Biblioteca Acrílico sobre tela 50x60cm


Biblioteca
Desenho a tinta da china sobre papel Canson 21x29cm

A obra que apresento, foi feita a partir de um esboço que fiz para ilustrar uma crónica de jornal. O esboço pareceu-me demasiado abstracto para poder ser considerado uma ilustração e resolvi fazer este desenho puro e duro que foi publicado com a crónica.


Esboço com caneta Rotring isograph, sobre papel, 17x20cm

Depois da publicação da crónica e do desenho, fiquei com um esboço a tinta da china de que eu gostava tanto que considerei a hipótese de o explorar noutras dimensões e com a adição de cor.
Esta obra foi de execução aparentemente fácil. Todo o trabalho de luz e sombras estava definido no esboço. Os elementos concretos de que me ia servir para introduzir o observador na biblioteca estavam lá: os arcos da estrutura do edifício, as portas, os corredores, as escadas com os seus corrimãos, as prateleiras com os livros... Torná-la confortável era a missão que a cor teria de cumprir. Nunca ficou claro no meu espírito se devia ou não povoar a biblioteca de leitores...
Cobri toda a tela com yellow ochre e burnt umber, definindo logo as zonas mais luminosas e as mais sombrias. Naples yellow e titanium white foram as duas cores que deram mais luz a zonas pouco iluminadas ou que precisavam de contrastes mais fortes para dar vida ao conjunto. Com o burnt sienna dei o tom avermelhado quente para tornar a biblioteca confortável. A cor azul (cerulean blue hue) serve também para dar contraste ao tons quase monocromáticos utilizados, mas sobretudo para abrir janelas, por onde a luz do sol entra e se vê o céu. Indispensável numa biblioteca.


BIBLIOTECA, O PAÍS DAS MARAVILHAS

Sinto saudades, absurdas saudades, dos momentos angustiantes que antecediam a minha entrada na biblioteca.
Actualmente, entra-se e pronto.
Dantes, não era certo o direito de admissão, mesmo cumprindo todas as regras. A porteira, com os bigodes iguais aos dos actuais porteiros das discotecas, tinha o direito divino de inventar uma regra para só deixar entrar quem lhe apetecesse. Mas atenção: nunca houve tiros para forçar a porta. A nossa imaginação só chegava ao lançamento duma garrafinha de mau-cheiro, por alturas do Carnaval.
A cerimónia de recepção, era tão complicada, como o ritual de acasalamento dos papagaios. Depois de depositar o BI nas garras da seresma, ela olhava para mim, cheirava-me, via a sola dos meus sapatos, examinava as minhas mãos e unhas com o ar de um sargento de artilharia, a revistar soldados.
Nesses infindáveis momentos, nem conseguia respirar o prazer de ter pulmões. Fazia o meu sorriso mais cativante mas só com muito custo conseguia evitar que raios paralisantes saíssem dos meus olhos, directos ao coração da megera.
Um último olhar para examinar os cabelos e levantava um braço, que tinha na ponta a mão, mas donde eu via sair um martelo que me atingia a cabeça. Algumas vezes, que maravilha, tinha uma senha azul e um dedo que me apontava o cimo das escadas.
Já sabia todos os truques para aumentar as hipóteses de subir ao paraíso: para eliminar cheiros suspeitos, tinha nos bolsos bolas de naftalina, misturadas com os bugalhos e abafadores, molhava os cabelos para baixar os remoinhos, calçava botas cuidadosamente ensebadas para não rangerem, com solas de borracha para não fazer barulho.
Apesar de tudo não era certa a entrada. O Zé Mocho ficou uma vez à porta porque tinha o risco do lado errado da cabeça.
Era preciso subir o primeiro lanço de escadas com muita calma: correr, era proibido!
Chegava a uma porta envidraçada. Esperava, sem sinais exteriores de impaciência. Bater, nunca! Quando a cabeça da senhora, com o nariz pousado numa montanha de papéis, se levantava para olhar o verme que se atrevia a incomodá-la, eu levantava, lentamente, a mão para lhe mostrar a senha.
A senhora recebia o passe e ciciava: “Sssegue-me, sssem barulho.”
Em bicos de pés, num ballet estranho, tic, tic, tic, chego a uma mesa comprida cheia de pessoas mergulhadas nas ondas de perfumes de tintas e bolores, drogas alucinógenas, cujo perigo ainda não tinha sido detectado pelos guardiões do regime. Sento-me numa cadeira vaga. Preencho a ficha com o pedido do livro a que tenho direito: a senha azul limitava o acesso a obras indicadas para meninos até aos catorze anos e para meninas até aos dezoito anos. Nunca percebi porquê. Passados uns eternos instantes, a bibliotecária deixa o livro requisitado na minha frente.
A partir desse momento esqueço a humidade desta sala bafienta, mal iluminada, ou os cadáveres sentados em cadeiras, a voltarem folhas de papel cheias de carunchos esfomeados, crac, crac, crac…
Lá fora podia subir ao sol, beijar as nuvens, falar com os pardais, afagar ou chutar uma bola… Tudo passava para segundo plano.
Com a ajuda do meu amigo, il Signor Emílio Salgari, vou derrotar todos os piratas, vou descer ao fundo dos oceanos com Monsieur Júlio Verne, com Mister Mark Twain vou ganhar amigos para sempre, ou vingar-me de todas as traições com Monsieur Alexandre Dumas.
Foi numa destas salas que Einstein formulou a teoria da relatividade. Assim também eu: lá dentro o tempo voa!
É sempre com um sobressalto que oiço ao meu ouvido:
- “Faltam dezzz minutossss”.
Agora, que tinha descoberto a palavra mágica para entrar na caverna do tesouro…
Nas bibliotecas actuais sinto a falta do barulho do caruncho, acho estranho estar a ver o sol a entrar pelas grandes janelas, enquanto, conduzido por Mary Shelley, entro num castelo sombrio, com perigosos vampiros sedentos de sangue, à espera da chegada da noite para beberem tudo.
Acho excessiva a familiaridade, com que posso ir buscar à prateleira, sem uma requisição em papel selado, Saramago
- Com que então, um Nobel, pá?
digo, dando-lhe uma palmada na lombada, ou Camões
- Tás bom, ó zarolho?
para não falar do disparate que é, deixarem qualquer pessoa sair pela porta fora com o Lobo Antunes na mão. Coitado, nem nas prateleiras o deixam sossegado.
Melhor, melhor mesmo é o sorriso simpático com que sou recebido na biblioteca. Mas, mesmo assim, não sei…É demasiado fácil. Acho que falta a incerteza, a angústia de poder, ou não, entrar. Ninguém me pede uma senha!
Serei masoquista?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

FERNANDO PESSOA



Retrato de Fernando Pessoa, 1954
Pintado por Almada Negreiros, Óleo sobre tela (201x201)

Almada Negreiros quis homenagear o seu amigo com esta obra magnífica. Toda a cintilante luz que percorre o café, e faz vibrar os soberbos vermelhos que envolvem o poeta, criam um contraste com a sua indumentária negra, que permanece impassível, concentrado na busca que marcou a literatura portuguesa e a mítica Geração do Orpheu.
Por diversas vezes tenho visto blogues portugueses e estrangeiros com poemas ou citações de Fernando Pessoa, que mostram a sua universalidade. Nessas alturas lembrava o desenho, que fiz para ilustrar uma crónica de jornal:


Fernando Pessoa
Tinta da china sobre cartolina rosa, 27,5 x 27,5 Pormenor
(O meu scanner não tem largura suficiente para apanhar todo o desenho).

A minha crónica dizia:

NA MESA DO CANTO

Os cafés são recintos onde só com muita dificuldade, actualmente, duas pessoas podem conversar naturalmente, devido à poluição sonora. Em compensação, tornou-se um local privilegiado para se saber as últimas novidades da vizinhança e os palpitantes desenvolvimentos das telenovelas da vida real.
Aquele que eu frequento mais assiduamente, fica em frente a um notário e perto do quartel dos bombeiros. É lá que tomo o café adoçado com meio pacote de açúcar e mexido com uma colherada das notícias do dia.
Na maior parte dos casos a reportagem é feita pela Dona Rosa, uma senhora de meia idade, de carnes generosas e voz de soprano a frequentar as primeiras lições de canto. Entra sempre cansadíssima, porque as suas mãos transportam vinte ou trinta sacos da Cooperativa “A Vontade do Povo”, do Intermarché, do Continente, da Feira-Nova, num “frou-frou” de plásticos, mistura de proletários e capitalistas, de couves e brócolos, onde convivem carapaus e petingas, com iscas e couratos.
Não sei como é possível uma simples dona de casa do terceiro esquerdo do Bairro da Caixa, ter tantos e incríveis acontecimentos para contar a toda a gente. A televisão sempre a vomitar colcheias, daquele incrível canal que tem a mesma música durante vinte e quatro horas por dia, serve apenas para sublinhar com uma banda sonora, as aventuras e desventuras dos seus personagens, num aumento de decibéis, à medida que as histórias se desenvolvem, entrelaçadas como pétalas de rosa.
Entre os frequentadores do café contam-se um avô e seu neto, Carlitos. O seu relacionamento, pode considerar-se perfeito. Tudo o que vai para a mesa é sistematicamente recusado pelo miúdo, sem razão aparente. Tudo o que a criança escolhe é recusado pelo avô: por ter creme a mais “ficas todo sujo”, ou demasiado gás “faz doer a barriga”, ser muito doce “faz mal aos dentes”, ou ter muito sal “faz muita sede”. Como se constata, por muitas e boas razões, todas ultrapassadas com facilidade, quando o petiz se lança para o chão aos gritos, numa simulação oscarizável de um ataque epiléptico. Claro que a partir desse momento, pode comer o quiser.
Segue-se a invasão dos bombeiros que saem do seu turno. Chegam em grupos de três ou quatro envergando a farda de trabalho, o fato de macaco e pedem invariavelmente sandes e cervejas. Falam só por monossílabos, cansados e, talvez, ainda impressionados com a dureza das nobres missões cumpridas durante a noite.
Segue-se um espectáculo de som e cor: o café transforma-se num estuário onde o azul, profundo como o mar da ganga viril dos bombeiros, é invadido pelo verde das fardas de terilene das técnicas de limpeza e conservação de espaços urbanos (como diria a D. Rosa, mulheres do lixo) que, como um bando de gralhas fugidas do jardim, pousam entre as mesas, grasnando entre si, novidades para todos os presentes.
Um pouco mais tarde, começam a juntar-se os herdeiros. Reconhecem-se com facilidade: vestem de preto, têm os olhos vermelhos e embora sejam todos familiares, dividem-se em grupos, crocitando entre si, como abutres a disputar bocados de carniça.
Saio rapidamente, enquanto o bando se reúne na árvore a espiar a abertura da porta do cartório, esticando os pescoços como as mãos de arrumadores de automóveis na caça de moedas.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

CONVENTO DE JESUS - SETÚBAL


Convento de Jesus - Setúbal Óleo sobre tela (60X100)

Fui contactado por um amigo para me encontrar com um casal que me queria fazer um pedido para a execução dum trabalho. No encontro que tivemos, fiquei a conhecer o jovem e simpático par e o que pretendiam. Moravam na cidade de Setúbal, em frente do Convento de Jesus, um dos marcos do estilo manuelino, datado de 1490. Queriam ter uma tela com o monumento que fazia parte das suas vidas. Concordei quase de imediato, com a condição de colaborarem na sua execução, como modelos.
Já devem ter visto nas séries policiais, que os fotógrafos ao registar um indício encontrado no local do crime, colocam ao seu lado uma régua e, na sua falta, um objecto com uma dimensão perfeitamente definida, normalmente uma moeda, para se ficar com a noção exacta do tamanho da prova. Da mesma forma, os pintores quando consideram importante realçar a imponência do motivo, servem-se de alguns truques que os ajudam a conseguir esse objectivo.
No dia e hora combinados, montei o cavalete em frente da porta do convento e esperei pela chegada dos modelos. Tinha pedido ao elemento feminino que vestisse uma blusa vermelha, com saia ou calças escuras, e para o elemento masculino uma camisa clara e blue jeans. Cuidei desse pormenor (?) da cor das roupas para dar os contrastes, às grandes extensões quase monocromáticas do largo. Todas as figuras estrategicamente colocadas em diversos planos são os actuais donos da obra, que se prestaram, com muita paciência, a percorrer diversas vezes o espaço entre mim e o convento. O lindíssimo cruzeiro que se vê no lado esquerdo da tela, foi executado em mármore vermelho da serra da Arrábida, por ordem de D. Jorge de Lencastre. Para além da sua beleza é um elemento essencial para forçar o olhar do espectador, a voltar ao lado esquerdo da tela que é um local observado com apenas um relance de olhos, na apreciação duma pintura. Utilizei o método pontilhista, com bastante matéria, para sugerir as protuberâncias e reentrâncias que a provecta idade do monumento, aliada à maciez do mármore, propiciam, num interessante jogo de luz e sombras.
Normalmente não coloco nenhuma figura no centro e nunca tão frontal para o observador. É contra as regras. As regras são feitas para ser quebradas – é uma regra! Neste caso, foi plenamente justificado pela alegria com que se reconheceram e são reconhecidos pelos amigos a passear num sítio tão emblemático.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

MERCADO DE PINHAL NOVO


Mercado Óleo sobre tela (50x40)

O mercado que se realiza no segundo domingo de cada mês no Pinhal Novo, depois da construção da estação de caminho de ferro, tornou-se um dos maiores do país, um autêntico hipermercado ao ar livre, onde a população de toda a região compra e vende de tudo um pouco.
A partir duma fotografia histórica, datada de 1908, que mostra a zona fronteira à capela e a importância que já tinha nessa altura o mercado, fiz uma tela de grandes dimensões que se encontra na sede da Junta de Freguesia de Pinhal Novo.
Foi neste local que foi captada a imagem que serviu para a execução desta obra. Para não ferir susceptibilidades, ou levantar suspeitas sobre as minhas intenções, levei comigo o meu irmão que se colocava em locais estratégicos para eu fotografar aquilo que realmente me interessava. Os ciganos não sei porquê, não gostam muito de ser fotografados ou, ainda menos, que tirem fotografias às suas companheiras...
Esta tela, cujo tema e resultado são aparentemente tão diferentes de “Discoteca” , foi na sua execução, muito semelhante.
A pintura base aplicada é o cadmium yellow, para todas as cores terem o brilho do sol e a tela respirar Verão por todos os poros. Não precisava de roxos, por isso o laranja como base não foi necessário.
O céu, o sol, a saia da vendedora, os eucaliptos, garantiram-me os necessários contrastes com as cores primárias e complementares, para a cena ter a vivacidade electrizante que o local transmite ao mais indiferente.
Espero que o cheiro dos animais, das bifanas e dos couratos, misturados com a poeira que paira no ar, não afaste os menos sensíveis a estes prazeres típicos da região caramela.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

DANÇA DO AMOR


Discoteca Acrílico sobre tela (33X41)

Bom Ano Novo!
Estive a procurar no meu arquivo uma tela para ilustrar as palavras que queria escrever, neste primeiro dia de 2008. Escolhi esta... Assinala momentos de descontracção, do prazer de dançar, de ouvir música, de convívio...
A cor base com que cobri a tela foi uma mistura de amarelo com laranja, com o objectivo de salientar as suas complementares, o roxo e o azul, que iria utilizar nas sombras. Os verdes e vermelhos criam os contrastes agressivos que pretendia para o ambiente. A cor base, que fica a respirar por toda a tela, julgo que harmoniza o conjunto, dando o toque final de suavidade, como se o amor pairasse no ar...
Espero que os meus amigos também sintam o seu perfume!

domingo, 30 de dezembro de 2007

JACK, O ESTRIPADOR - Parte II


Altar-mor da Igreja Matriz de Alhos Vedros (pormenor)

Jack, o estripador – Parte II
Para satisfazer a curiosidade dos meus amigos, vou completar o relato que fiz dos acontecimentos na inauguração da exposição da minha obra “Altar-mor”, revelando o seu final.
A realidade ultrapassa a mais fértil imaginação. Não sei se sou eu o primeiro a escrever esta frase, mas sei que todos nós, em algum momento, já o pensámos.
Para que não restem dúvidas sobre a veracidade dos acontecimentos, vou transcrever o relato saído num dos jornais de referência.

O insólito aconteceu
O conhecido (mudei o adjectivo: estava famoso:) pintor António Tapadinhas foi o culpado involuntário de um grave acidente que ocorreu durante a apresentação da sua última obra, “Altar-mor da Igreja de S. Lourenço”, na histórica vila de Alhos Vedros.
O autor estava a explicar para uma plateia interessada e atenta, como tinha conseguido criar as cores e texturas que tornam a obra tão viva, principalmente os azulejos, que de tão realistas parecem cair da tela a qualquer momento, quando se ouviu um homem de feições asiáticas gritar em voz alta:
“Os azulejos são colados!”
Fez-se um silêncio tumular na sala. A multidão abriu alas para deixar passar o indivíduo que brandia uma enorme navalha, dirigindo-se directamente para a tela que, mais do que nunca, se tornara o centro das atenções.
“Vou arrancar os azulejos, para provar à minha mulher e a todos vós que tenho razão.”
Nesse momento, todos os olhos se voltaram para uma mulher que a chorar convulsivamente, dizia em voz alta:
“Não! Não tens razão! Eu passei duas noites com o pintor para o ajudar a acabar a obra! Eu vi-o a pintar os azulejos! Até o ajudei a limpar os pincéis...”
O homem ficou lívido e disse com voz tremente:
“Antes a morte que tal sorte!”
Caiu de joelhos e, antes que alguém pudesse reagir, agarrou a navalha com ambas as mãos e fez harakiri perante a multidão estupefacta...


Desde esse dia nunca mais pintei azulejos...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

JACK, O ESTRIPADOR


Altar-mor da Ig. de S. Lourenço Acrílico sobre tela (100x100)


Igreja de S. Lourenço Técnica mista sobre papel


Pelourinho e Capela Tinta da china sobre papel

A primeira vez que me convidaram para fazer a capa de um livro foi para o “Dicionário dos Falares de Trás-os-Montes”... Seguiram-se outros falares...
Continuei com os livros históricos... No volume II de “Contributos para a História Local do Concelho da Moita”, na capa desenhei a tinta da china o pelourinho e a Capela da Santa Casa da Misericórdia de Alhos Vedros.
Para os mais interessados em história, o pelourinho tem fuste de secção oitavada e lisa assente numa base encordoada. No cimo tem um capitel tronco-piramidal com uma esfera armilar em ferro.
A Capela, construída em 1587, é constituída por uma nave coberta por tecto de madeira e as paredes revestidas de azulejos do século XVII. O altar-mor tem um retábulo de talha dourada do mesmo século, com a sua estrutura organizada como um arco de triunfo.
O volume III, terá na capa a Igreja de S. Lourenço, Matriz de Alhos Vedros, que representa a nobreza da vila. Da igreja construída no século XIII, nada resta. A actual data do século XV e a nave e pórtico do século XVII, com azulejos de 1749 que relatam passagens da vida do patrono da Igreja.
Foi nesta igreja, que pelo seu conjunto estilístico heterogéneo deixa adivinhar modos diferentes de encarar a religiosidade, que eu, em frente ao altar-mor de talha dourada, com a autorização do Padre Carlos, passei alguns dias a cuidar dos pormenores da pintura que agora apresento.
Talvez por ser demasiado óbvio não empreguei nenhuma tinta dourada. Utilizei toda a gama de cores a começar no “cadmium yellow pale” e a acabar no castanho “burnt umber”, passando pelo “naples yellow” e “yellow ochre”. Tentei dar-lhe toda a riqueza de nuances e matizes que a luz filtrada pelos vitrais, e a luz bruxuleante das velas ora esconde, ora revela, num jogo de claro-escuro, que me obrigou ao mesmo tempo a ser paciente e rápido, para registar na tela as impressões de momentos quase sempre irrepetíveis.
Trabalhei esta obra um pouco a contra-relógio, porque tinha imposto a mim próprio a obrigação de a apresentar nas Festas de Nossa Senhora dos Anjos que se realizavam no final do mês de Julho. E consegui.
Fui recompensado pelo meu esforço com os comentários favoráveis que ouvi. No entanto, no dia da sua apresentação fiquei um pouco preocupado: mais do que um apreciador da obra (ou da Igreja), espreitou os cantos para ver como é que eu tinha colado os azulejos... Esta dúvida provocou uma acesa discussão num casal: o marido dizia que eram pedaços de azulejos colados, a mulher que era pintura. Ele, para provar à mulher que tinha razão, tirou uma navalha do bolso para levantar os azulejos...
Já tenho ficado com pele de galinha quando pessoas sem problemas de visão, assumem que a superfície da tela é uma escrita em Braille, que só pode ser apreciada com os dedos...
Com uma navalha nunca tinha visto!
Felizmente o homem não se chamava Jack...

sábado, 22 de dezembro de 2007

CONTO DE NATAL

´
Paisagem Óleo sobre tela colada sobre platex (28x34)

Apresento esta obra, porque me parece fazer lembrar a aldeia do meu conto de Natal.
Este foi o meu primeiro quadro (1994). Quando o pintei, no estúdio do Mestre Pina da Silva,ele fez um ar de surpresa e agrado, que me deixou muito orgulhoso e disposto a continuar a pintar. Esta continua a ser o obra preferida da minha filha, Elsa. Estou farto de trabalhar para ver se consigo mudar-lhe a opinião. Até hoje, ainda não consegui...
Não há amor como o primeiro...


Natal em Setembro

Capítulo I – Regresso às origens
Olhou novamente para o relógio digital do automóvel: nesse momento, marcava nove horas da manhã, do dia vinte e cinco de Setembro, o que queria dizer que faltavam pouco mais de três horas...
Apesar do mau estado da estrada não estava arrependido por ter cedido ao impulso de fazer aquele desvio.
A decisão tinha sido tomada no momento da assinatura dum vantajoso contracto de fornecimento de café, ao verificar que o dono da empresa era natural de Arnóia. Considerou esse facto como um sinal divino para cumprir uma obrigação que, por um motivo ou outro, tinha sempre adiado.
Não fazia a mínima ideia do que iria encontrar. Esperava ter na aldeia, um local em que pudesse almoçar e convencer alguém a mostrar-lhe a casa onde tinham vivido os seus pais, o seu jazigo e o túmulo de Munio Moniz, o mais ilustre de todos os seus antepassados.
Depois de subir um pequeno outeiro, viu pela primeira vez a aldeia em todo o seu esplendor. Um edifício destacava-se no meio do casario, talvez um antigo mosteiro, junto a uma igreja no centro da praça, rodeada por casas de construção tradicional, em que predominava o granito. No limite poente, distinguia-se um pequeno castelo, com a torre de menagem em ruínas.
Enquanto o seu cérebro absorvia estas informações, começou a suave descida e, ainda mal refeito das emoções contraditórias que o assaltavam leu, incrédulo, num arco cheio de lâmpadas de diversas cores: “A Fundação deseja a todos um Feliz Natal”.
Os arcos com luzes sucediam-se a espaços. As árvores que ladeavam a estrada estavam ponteadas de lâmpadas coloridas e as montras dos estabelecimentos tinham tudo o que é normal apresentar na quadra natalícia.
Chegou ao centro da praça e estacionou o automóvel. Apreciou com espanto o presépio e o gigantesco pinheiro coberto de luzes e bolas coloridas, junto ao pelourinho e coluna da forca. Uma decoração grandiosa, atendendo à dimensão da aldeia. “E única – disse para si próprio. Não te esqueças que estamos a vinte e cinco de Setembro”.
Ao fundo duma rua estreita, divisou um estabelecimento que lhe pareceu um café. Dirigiu-se para lá. Um sorriso suavizou-lhe as faces angulosas ao ler o nome na placa suspensa sobre a porta: “Café – Natal Sempre”.
Quando entrou, as poucas pessoas presentes fizerem silêncio, a olhá-lo, achou, ostensivamente.
-“Bom dia, minha gente!” – saudou em voz alta, caminhando para o balcão.
Ficou com a impressão que todos se levantaram para lhe responder, num coro afinado:
-“Bom dia, senhor!”.
No balcão, um velho, de ombros largos e direitos, cabelos brancos e ralos, mãos enormes a segurar um pano branco, com um sorriso jovial, perguntou:
-“Em que lhe posso ser útil, senhor Moniz?”.
Tentando ocultar o seu espanto, pediu um café.
Relanceou os olhos pela sala. Na parede, por cima da lareira, despertou-lhe a atenção um imponente quadro a óleo, com uma figura que, àquela distância, lhe pareceu familiar.
Aproximou-se. A curiosidade transformou-se em surpresa; em espanto; em assombro. Estava a ver o seu retrato: só que ele nunca usaria umas patilhas tão grandes.
Voltou para o balcão e quis pagar o café.
O ancião torcia nervosamente o pano branco nos dedos finos e compridos.
-“Por amor de Deus, senhor Moniz. Não é nada. Tem de se apressar. O padre Abílio espera-o. A minha empregada vai indicar-lhe o caminho até ao mosteiro”.
Achou que não valia a pena discutir, tal a rapidez e convicção com que foram ditas as frases.
Dirigiram-se para o mosteiro. A empregada ao entrar na sacristia, pediu-lhe para que se sentasse enquanto ela ia chamar o senhor prior.
O padre Abílio era uma figura imponente; um modelo perfeito para El Greco: altíssimo, direito como um pinheiro com a copa formada pelos fartos cabelos brancos, que contrastavam com os olhos negros e expressivos, abertos dum espanto que Sérgio começava a achar normal. Tinha uma voz grave e pausada.
-“O senhor é um Moniz. Vem almoçar?” – mais do que uma pergunta, era uma afirmação.
Sérgio, não resistiu. As palavras saíram rápidas, veementes.
-“Senhor padre, eu não sei nada de almoços, nem porque todo o mundo está ficando feito bobo a olhar para mim, como se vissem fantasma ou santo em carne e osso. Me explica tudo direitinho, por favor!”.
Era tal o desespero patente na sua cara que o padre deixou para depois a satisfação da sua própria curiosidade.
Eis, em resumo, a história que o padre Abílio lhe contou.

Capítulo II – O almoço de Natal

Dom Sertório e Dona Eurídice eram as pessoas mais ricas e bondosas da região. Para a sua felicidade ser completa, apenas faltavam os filhos. Desenganada pelos médicos, Dona Eurídice prometeu ao Menino Jesus que se tivesse um filho, a comemoração do aniversário do seu nascimento seria no dia de Natal, com a presença dos habitantes da aldeia, sendo distribuídos brinquedos e prendas a todas as crianças.
Passado algum tempo, a boa nova correu a aldeia: Dom Sertório Moniz ia ser pai.
E assim foi. Para contentamento de todos, no dia 25 de Setembro, perto do meio-dia, nasceu um robusto rapaz a quem deram o nome de Sérgio.
Esta felicidade não durou muito tempo. No início da Primavera, Dona Eurídice adoeceu. Persistentes dores de cabeça, levaram-na a fazer diversos exames. Os especialistas consultados foram unânimes: tinha um tumor no cérebro que dentro de pouco tempo lhe roubaria a vida. Os primeiros sintomas seriam dificuldades de coordenação motora e uma gradual perda de visão e dos momentos de lucidez.
Quando Dona Eurídice toma consciência do seu estado de saúde, no seu cérebro só havia espaço para um pensamento que era simultaneamente um pesadelo surrealista para Dom Sertório: o receio de não comemorar o primeiro aniversário do seu filho.
Nas longas horas que passava a seu lado, surgiu-lhe uma ideia que, quanto mais pensava nela, mais convencido ficava da sua bondade. Para a sua concretização era indispensável a anuência do prior.
Foi mais fácil do que pensava. Depois de lhe contar o seu plano, o pároco concordou de imediato, fazendo a sugestão de pedir a colaboração dos seus paroquianos na missa de Domingo, a mais frequentada.
Foi passada a palavra. A igreja encheu-se de pessoas ansiosas para saber qual o importante anúncio que ia ser feito durante a missa. Num sermão comovente, o padre pediu a crentes e não crentes, para colaborarem numa missão em que todos ficariam a ganhar e ao mesmo tempo fariam a felicidade de alguém que muito estimavam: a Dona Eurídice que, tudo indicava, deixaria em breve este mundo, por vontade do Altíssimo. Com a assembleia a beber as suas palavras, concluiu:
Aquilo que vos peço é que todos aceitem o convite para um almoço de Natal no dia 25 de Setembro. É indispensável que preparem os vossos filhos para receber os presentes das mãos de Dona Eurídice, como se fossem entregues pelo próprio Menino Jesus. Deus vai perdoar-nos esta pequena mentira. Ámen.
A partir desse dia, começaram os febris preparativos para a grande festa. Dom Sertório não tinha mãos a medir para resolver todos os problemas que surgiam. Quase sem notar, o grande dia chegou.
Nessa manhã, como todos os dias, foi ao hospital, visitar a sua amada esposa. Quando chegou ao quarto, Dona Eurídice ainda dormia tranquilamente, devido aos sedativos que a mantinham numa semi-inconsciência. Ansioso, esperou que ela acordasse naturalmente.
Quando se apercebeu da presença de alguém no quarto, abriu os olhos e, ao vê-lo, um sorriso brincou na sua face cansada. E fez a pergunta:
-“Querido, já é Natal”.
-“Sim querida, hoje é dia de Natal e tenho aqui a tua prenda!”.
Um sorriso iluminou a sua face, o quarto, a aldeia, o mundo.
Ajudou-a a abrir o embrulho.
-“É o vestido que quero que vistas na festa de Natal!”
Quando chegaram ao grande salão engalanado, onde se realizava a festa, os habitantes da aldeia levantaram-se e gritaram num coro desafinado:
-“Feliz Natal! Feliz Natal!”
Dona Eurídice morreu três dias depois, agradecendo a Deus por ter podido cumprir a sua promessa.
Na semana seguinte, Dom Sertório Moniz, assinou a escritura da “Fundação Natal Sempre”, a que doou o Mosteiro e um capital inicial suficiente para cumprir a obrigação de fazer a festa de Natal no dia vinte e cinco de Setembro de cada ano, convidando todos os habitantes da aldeia e fazer a oferta de brinquedos às crianças. Ficava também determinado, que a partir desse ano, seriam concedidas bolsas de estudo a todos os que delas precisassem.
Dom Sertório Dinis morreu de causas nunca esclarecidas. Suicídio ou ataque cardíaco? O que se sabe é que deixou o encargo de criar o filho ao seu único irmão, Afonso. Passado pouco tempo, este vendeu todas as propriedades e emigrou para o Brasil. Desde esse dia, nunca mais houve novas ou mandados da família Moniz.
A Fundação, bem administrada, floresceu e continua a cumprir o objectivo para que foi criada: realizar a festa de Natal no dia vinte e cinco de Setembro.

Ao acabar a sua narração, o prior olhou para o homem que, vergado ao peso de uma imensa dor, chorava convulsivamente.
-“Afinal quem és tu, que tanto sofres?”
-“Sérgio Moniz!”
O velho padre Abílio que o tivera nos braços, recém-nascido, abraçou-o fortemente, juntando as suas lágrimas e o seu riso ao amigo reencontrado. E disse, com a simplicidade do que é sublime:
-“Parabéns, Sérgio! Vamos embora! Já estão à nossa espera para almoçar!”.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL

 
Posted by Picasa


BEIJO Carvão sobre papel Canson - 400 g/m2 (30x30) Trabalhado digitalmente

Quando se pede alguma coisa a alguém, há sempre a hipótese de três respostas: não, sim ou talvez. A She pediu-me uma prenda e eu respondi talvez. A sua impaciência só podia significar uma coisa: o meu talvez, pouco convicente, significou para ela um SIM categórico. De vez em quando, dava por mim a pensar o que iria fazer para resolver o problema. Encontrei a solução mais simples: cumpri uma promessa (?) e ofereço uma prenda para o sapatinho duma amiga. O ponto de interrogação é por não saber se ela vai gostar do desenho. Se não gostar ofereço-o ao amigo/a que primeiro mo pedir.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

FESTAS FELIZES!


Feliz Natal! Aguarela sobre papel (20x22)

Em 2001, fui convidado pelo director do jornal “O Rio”, para escrever regularmente uma crónica sobre um assunto qualquer à minha escolha. Passado o primeiro instante de surpresa resolvi aceitar e foi nessa altura que nasceu “Sem Margens”, o título genérico das minhas crónicas, que eram sempre acompanhadas por uma ilustração. Até 2005, ano em que iniciei a publicação do cartoon “Gaivo e Gaiva”, um casal de gaivotas, que aparecia a comentar os acontecimentos mais relevantes, mantive a sua publicação.
Nesse primeiro ano, escrevi um conto de Natal e foi esta a aguarela que o ilustrou.
Pelo seu simbolismo, pareceu-me a melhor maneira de desejar a todos
Festas Felizes!

sábado, 15 de dezembro de 2007

CONSUMISMO NO NATAL

 
Posted by Picasa


Centro Comercial Acrílico sobre tela (80x100)

No momento que comecei a escrever estas palavras faltavam 8 dias, 15 horas, 02 minutos e 4 segundos, para o Natal! Sei isto, porque tenho no computador um relógio enviado por um amigo, que está a fazer a sua contagem decrescente.
Em Portugal, o comércio em geral irá facturar montantes aproximados ao total dos restantes onze meses do ano.
Todas as novidades aparecem nesta altura e as campanhas publicitárias são tão arrasadoras que não dão tréguas em nenhum sector da nossa sociedade. Esta data, agrava a tendência para fazermos as coisas como autómatos. Alguém anda a programar a nossa vida sem nos dizer nada: vamos para o trabalho à mesma hora, comemos e dormimos ao mesmo tempo. E agora, aquilo que nos interessa, fazemos as compras no mesmo mês do ano, com tendência para ser na mesma semana e, com o passar do tempo, no mesmo dia: o último...
A Teoria da Evolução, de Darwin, afirma que as espécies animais existentes na Terra, sofrem ao longo das gerações, uma modificação gradual que põe em evidência a selecção natural. Na luta pela sobrevivência, os mais bem adaptados são os que deixam mais descendentes.
Um Centro Comercial, no Natal, ou na altura dos saldos, é um espaço cheio de cor, de luzes berrantes, de homens e crianças berrantes, distribuido por diversos pisos, em que as pessoas se atropelam para chegar primeiro, chegar mais alto, lá no cimo da prateleira, onde está aquele brinquedo que ainda ninguém viu, onde está aquela folha verde, jovem, tenrinha e suculenta, a que só a girafa com o seu pescoço imenso poderá chegar...
Da conjugação destes dois conceitos tão diferentes, Centro Comercial e Teoria de Darwin, nasceu esta obra. Espero que gostem dela, porque apesar de tudo,
EU ADORO O NATAL!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

CHEGADA A LISBOA


Cacilheiro Óleo sobre tela (75x100)


Esta tela foi feita especialmente para uma exposição que fazia parte de um programa de humanização dos hospitais, nas relações com os seus utentes. Pretendia o seu director com a realização de diversas exposições nos locais mais frequentados, levar um pouco de alegria àqueles que aparentemente não teriam muitos motivos para se sentirem felizes.
O hospital foi o Garcia de Orta em Almada, cidade que fica em frente a Lisboa, na margem esquerda do Tejo. As telas que apresentei mostravam Almada, ou Lisboa vista de um ângulo pouco habitual: as imagens foram todas captadas de barcos da carreira Barreiro – Lisboa, ou Cacilhas – Lisboa. Estes barcos são chamados cacilheiros... É a bordo de um destes barcos que está o casal, completamente alheio à beleza do casario de Lisboa...
Esta obra ficou a fazer parte do espólio do Hospital... Nunca mais a vi, não sei em que gabinete ou corredor estará...
Fica um pedido e um conselho para o nosso amigo Jorge: gostava que me contasses um dia a história deste jovem casal... O conselho é: quando vieres a Lisboa não percas a travessia do Tejo no cacilheiro, para ir comer a caldeirada ao “Ginjal”. Eu convido-te...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

TODA A VERDADE

Nos comentários foram feitas algumas perguntas a que esta minha resposta poderá tirar dúvidas. Surge aqui, porque me parece ser de interesse geral, agora que o problema do Kosovo está na ordem do dia.

Estive na Jugoslávia em 1989. Durante quinze dias percorri a costa Adriática,desde Dubrovnik até Belgrado, passando por Split e Sarajevo... Fiquei maravilhado com a sua beleza natural, a sua diversidade cultural e religiosa, e preocupado com o que iria acontecer, depois de diluída na memória dos povos a figura de Tito, que apesar de ter morrido em 1980, era a única personalidade que conseguia manter enterradas as lembranças de guerras passadas, e aceitáveis as desigualdades visíveis entre Sérvios, o grupo étnico mais importante, os Croatas, de maioria católica, os Eslovenos, os Montenegrinos... Este país, era uma federação de seis repúblicas e três regiões autónomas, entre as quais o Kosovo, com quase dois milhões de albaneses. Com o decorrer do tempo, a unidade do país começa a degradar-se e as diversas repúblicas começam a proclamar a independência: Eslovénia, Croácia e Macedónia em 1991, Bósnia em 1992. Com guerras entre eles, com a ONU a expulsar, a Nato a bombardear, a CE a sancionar...
E eu, e o grupo de amigos que tínhamos estado na Jugoslávia, que fazíamos dessa viagem de sonho uma das mais maravilhosas da nossa vida,ficávamos atónitos e revoltados por vermos locais paradisíacos, únicos, a serem bombardeados, pessoas (que será feito de Andres, guia doutorado em turismo, que falava fluentemente dez línguas, que nos acompanhou e nos explicou tão bem a diversidade de povos e religiões, ele que acreditava no futuro da Jugoslávia - que será feito dele? Perguntávamos –que foi feito dele? Perguntamos, ainda) a serem trucidadas, enterradas em valas comuns...
...e o Tribunal Penal Internacional a julgar a partir de 1993. A mostrar fotografias das atrocidades cometidas...
As personagens dessa tela, eram pessoas que eu podia ter conhecido...
Mesmo que não me tenha cruzado com elas, ouvi os seus gritos...
Este foi o meu... não foi ouvido... e ainda há o Kosovo...

Estive a escrever estas palavras e a ouvir no YouTube, Miss Sarajevo dos U2 - Pavarotti & Friends. Não ficou ao alcance de um clic porque ainda não sei fazer isso com segurança e tinha medo de perder todo o que tinha escrito...

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

NÃO INDICADO A PESSOAS SENSÍVEIS


Clicar sobre a fotografia




Cemitério ao luar Óleo sobre tela (50x30)

Na peça que apresentei em Outubro, Baixa-mar, faltou dizer que fiz um trabalho preparatório, que tinha resolvido não mostrar, porque mais uma vez, o esboço não tem nada a ver com o resultado.
Graças a um programa de que tomei conhecimento no blog da amiga Sibyla, mudei de opinião. O resultado, está aí para vossa apreciação.

domingo, 9 de dezembro de 2007

(E)TERNA SEDUÇÃO


VÉNUS Óleo sobre tela (100x100)

“A sedução é um dom: como o da poesia.
Também tem muito a ver com a música.
A pintura e a própria escultura vêm depois.”
David Mourão-Ferreira

Escrevi as seguintes palavras, para apresentação desta exposição:
Mães, anjos, mártires, deusas, rainhas, é infindável a galeria de mulheres que seduziram e inspiraram os artistas ao longo dos tempos.
As dez obras desta exposição, com diversas técnicas e suportes, têm em comum um audacioso cromatismo, vivo e sensual, pleno de exuberância: um hino à alegria de viver.
Os modelos são banhados por uma luz forte, com cores vivas e quentes, que, se em alguns casos, quase os ocultam, serve sempre para evidenciar a sua beleza e sensualidade.
Com o pincel ou com a espátula, os traços vigorosos, plenos de matéria, afagam os corpos nus numa carícia que se transmite em reflexos de luz que traduzem os sentimentos poéticos do seu criador e nos fazem sonhar com um mundo melhor, mais harmonioso, mais sedutor.

Calceteiro ou escultor?

Na inauguração desta exposição, como em qualquer outra, depois dos primeiros momentos em que as obras expostas são a atracção, a atenção dos visitantes dispersa-se com os aperitivos e as bebidas. Começam a formar-se pequenos grupos de pessoas com afinidades, amigos que não se viam há algum tempo trocam impressões, o repórter vai saltitando por entre os grupinhos tentando captar algo de interessante para a sua reportagem.
Eu formava um desses grupos restritos com dois ou três amigos numa conversa sobre nada. Um deles, numa maneira casual, pergunta-me:
- Então, que trabalho tens entre mãos?
- Uma pergunta muito pertinente– respondi, mostrando-lhe as mãos com alguns calos recém formados. Agora, estou a fazer calçada portuguesa.
- Não acredito!
- Verdade! Eu tinha, não sei se te lembras, um espaço em frente da minha casa que devia ser relvado. Infelizmente o raio da relva não resistia às ervas daninhas. Um dia, fui dar uma volta à zona ribeirinha da Moita e reparei que o pessoal dos serviços camarários estava a calcetar o espaço que circunda o edifício da Câmara. Estive a observar os procedimentos técnicos, os materiais, conversei com alguns operários, tirando notas de alguns pormenores que considerei mais importantes e, cereja no cimo do bolo, fiquei com o nome dos melhores fornecedores de materiais. Pensei que era a solução certa para resolver os meus dois problemas de uma vez só: Acabar com as ervas e tornar o espaço agradável. É isso que estou a fazer.
- Com que então, agora é calceteiro? – gritou o repórter mesmo atrás de mim.
Fiquei em pânico. Estava já a ver como título da reportagem: ”Pintor em apuros aceita trabalho de calceteiro”.
Lembrei-me então que a melhor defesa é o ataque:
- Calceteiro, eu? Não! Escultor!
Ficou de boca aberta, siderado pelo vigor da minha resposta.
Facto é, que não perguntou mais nada, e a reportagem salientou apenas os aspectos mais interessantes da exposição. Até hoje, ainda não lhe perdoei ter-se esquecido de mencionar os meus trabalhos de escultor.
Que frustração!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

...DE COMO EU COLABOREI NO SALVAMENTO DE UMA FOCA-BEBÉ...




Foca-bebé tinta da china sobre papel (56x44)

Este trabalho, de 1998, resultou do apelo de uma câmara Municipal, aos artistas do Concelho, para colaborarem numa daquelas campanhas contra o massacre, especialmente repugnante, das focas-bebé. Continua actual, porque em 2006 foram alcançados números impressionantes: 355.000 focas mortas!
Eu fui atingido pelo problema num daqueles tele-jornais especialmente realizados por Cronenberg para a hora de jantar, em que se mostrava homens a matar aquelas coisinhas fofas com um bastão de basebol! Sem comentários. Adiante...
Quando tinha o trabalho quase concluído a minha filhota Elsa passou no estúdio para ver o que eu estava a fazer. Adorou, claro (é filha), e então eu disse-lhe que faltava pôr o sangue que inundava aquela água... Olhou para mim incrédula! Quando compreendeu que eu estava a falar a sério tirou-me o desenho, que ficou sujo, não de sangue, mas de duas lágrimas que lhe correram pela face...