segunda-feira, 17 de setembro de 2007

HISTÓRIA DE UM PINTOR

Aquele sou eu, deitado naquela cama, na fria brancura hospitalar. Estava cheio de dores, com tubos de drenagem na barriga, com agulhas que me injectavam soro nas veias, o peito mordido por pontos que ajudavam a juntar o esterno serrado e agrafado. Não me doía menos a perna esquerda, também cosida, depois de tirada a veia grande safena, da qual, três segmentos foram ligados a outras tantas oclusões arteriais coronárias. Agora, não me apetece voltar: estou aqui tão bem, junto ao tecto, perto do relógio cujo tic-tac abafa todos os sons, apaga todas as dores.
Não posso ficar a olhar para mim, eternamente. Poderei seguir a vereda luminosa que tenho à minha frente? O brilho é tão intenso, que não deixa ver onde termina aquele caminho ladeado por árvores de luz, que estranhamente parecem projectar sombras para o tornar mais apetecível de percorrer. Será que este fio de luz que me liga ao meu corpo, pode esticar o suficiente para eu o percorrer por inteiro?
O caminho faz-se, caminhando.
Curioso: o fim parece estar sempre à mesma distância, mas já não consigo ver o meu corpo. Será que ainda posso voltar? Tanta luz, tanta cor... Será que ainda quero voltar?
Começo a ouvir vozes. Melhor: sons que saem daqueles corpos de luz, envoltos por finas películas, como enormes bolas de sabão, com todas as cores do arco-íris e de outras que vejo pela primeira vez.
Estão a falar todos ao mesmo tempo. Sinto os sons na minha cabeça, só que não percebo o que dizem: como numa feira, com todos os amplifidadores no máximo, mas mal sintonizados.
À medida que avanço, começo a entender alguns dos pensamentos sonoros, que as figuras trocam entre si. A cada momento, esta capacidade aumenta. Cada átomo do que sou deixa-se envolver pela carícia das mensagens trocadas.
Já não há árvores nem sombras, assim, sem transição. Estou numa clareira, imensa como um oceano de luz, num céu em que flutuam incontáveis películas que, ao aproximarem-se umas das outras soltam sons melodiosos e suaves que parecem comandar os tons luminosos das esferas, num concerto intraduzível, mas coerente, de luz e sons.
Dou por mim a movimentar-me ao compasso daquela música e, não sei como, os meus movimentos vão deixando no espaço résteas de luz que vão construindo o meu casulo.
Um som mais insistente sobrepõe-se a todos:
- Que fazes? Não podes ficar aqui!
Um casulo destaca-se dos outros. Parece formado por pétalas de girassol. Lá dentro distingo alguém com luminosos olhos verdes, com barba e cabelos ruivos, encimados por um chapéu de palha que lhe rodeia a cabeça como um halo. Um contraste de cores complementares, que me permite, sem esforço, identificar o meu interlocutor.
- Vai-te embora! Eu fico à tua espera na casa amarela.
E eu vi a casa! O pequeno terraço, o candeeiro, as mesas e as cadeiras, o toldo amarelo. De repente, a luz que penetrava tudo começou a desaparecer num turbilhão, como sugada por um vento cósmico gerado pelos ciprestes a roçar as estrelas desse céu exaltado e fantástico.
- Volto, quando? – pensava.
- Logo que estejas pronto, saberás.
Tal como a luz desaparecia, também o fio que me prendia ao meu corpo, parecia perder luminosidade.
Momentos antes, estava no paraíso; agora sentia uma urgência desesperada de regresso.
E regressei: rápido como a luz... para a luz, para a vida.
Fiquei com uma certeza: não posso desperdiçar um minuto. Não por mim – tenho a minha cadeira reservada no terraço da “Casa Amarela” – mas por algo que ainda tenho para fazer. Quando chegar o momento, saberei... e espero não falhar.
Há coisas que é melhor não sabermos – ou não as contar a ninguém!

ANTÓNIO TAPADINHAS