quarta-feira, 12 de setembro de 2007

FANTASMA DO FOTÓGRAFOUm amigo (posso chamar-te amigo?) pediu-me para escrever sobre pintura.Para mim é difícil. Duplamente. Não sou isento quando falo do que amo, e a Arte não se explica: sente-se.Perante uma obra, ficamos muitas vezes tentados a descobrir nela, um significado mais ou menos oculto. Somos incapazes de apreciá-la simplesmente, de a saborear. Esta atitude aumenta proporcionalmente com a subida do grau académico do apreciador, até ao seu expoente máximo: o Crítico. Critico, logo existo. Na pintura, o artista procura transmitir mensagens, emoções, tanto mais eficientes quanto menos utilizar a muleta da escrita ou da fala, para a sua interpretação. De tal maneira, que para apreciar a qualidade do pintor, deveria ser suficiente analisar a sua obra. O que é uma tarefa impossível - só o tempo dá a exacta medida do seu real valor.Por agora, tudo é considerado Arte - um imenso saco onde convivem ovas de carapau, com caviar, lixo com obras-primas, dependendo de lobis, partidos, camas, tachos…E não são os críticos que nos podem ajudar: o fantasma de Nadar paira sobre eles.Em 1874, o fotógrafo Nadar acolheu no seu estúdio uns quadros que pareciam inacabados, pintados ao ar livre, com pinceladas rápidas e nervosas, plenas de matéria e de cores puras, fortes e contrastantes. Estas pinturas eram sistematicamente recusadas pelos académicos que seleccionavam as obras que tinham qualidade para figurar no Salon, a grande mostra que se realizava de dois em dois anos, em Paris.Na primeira exposição das obras recusadas, um jovem pintor, Monet, apresentou uma cena marinha a que chamou “Impressão - Sol nascente”. Um crítico conceituado (Louis Leroy) considerou um papel de parede mais elaborado do que aquela obra, num cáustico e corrosivo artigo intitulado : “A Exposição dos Impressionistas”.Ironicamente, esta expressão depreciativa, começou a ser utilizada para definir o género de pintura que se transformou numa das mais valiosas da actualidade. No top das obras vendidas, para só citar os três primeiros lugares, estão alguns desses recusados do Salon:- Retrato do Dr. Gachet, de Van Gogh, 19,5 milhões de contos- Au moulin de la Galette de Renoir, 18,5 milhões de contos- Auto retrato sem barba, de Van Gogh, 16,9 milhões de contosVan Gogh em toda a sua vida., vendeu um quadro. Foi sustentado pelo seu irmão Theo que encheu a casa de obras que não conseguia vender.Renoir foi considerado um “ingénuo” e um “medíocre” por Wynford Dewhurst, nas colunas do New York Times. Os críticos de Arte compartilham com o artista o direito de, por vezes, errarem. Se todos tiverem bem presente no espírito esta verdade, das cinzas de um qualquer dogma que se desmorona, pode surgir uma nova e mais excitante descoberta.Não podemos recusar a diferença.Ser diferente, às vezes, é ser melhor.