sábado, 31 de maio de 2008

FARENHEIT 451




Caldeira do Moinho Pequeno
Acrílico sobre tela 80x100cm

Tenho mostrado algumas das muitas telas que pintei em que os Moinhos de Alburrica são a figura central do quadro. Há outros moinhos, os de maré, que funcionavam com os ritmos da subida ou descida das águas.
O esqueleto da casa, que aparece na parte esquerda do quadro, é aquela onde funcionava o moinho de maré. Da língua de terra, em frente, vêem-se as entradas de água que faziam girar o sistema. Num dos meus passeios pela zona, apercebi-me das possibilidades pictóricas daquela casa e do seu moinho. Depois de estudar o horário das marés, e ver as condições do tempo, porque precisava de um céu sem nuvens para poder tirar o máximo partido dos surpreendentes e espectaculares reflexos dos tijolos na água, consegui realizar uma obra que me deu grande satisfação produzir.
O que eu não sabia é que, afinal, a história do moinho ainda não estava completa!
Um dia, fui ver uma exposição na escola Alfredo da Silva, que fica junto ao rio. Naturalmente, olhei para a caldeira e fiquei espantado com o grau de destruição atingido pela casa e moinho, em tão pouco tempo. E fiquei fascinado pelo esqueleto que parecia o resultado de um incêndio que tivesse atingido a construção.
Resolvi perpetuar na tela a destruição daquela casa que, ao contrário da adaptação cinematográfica do livro de Ray Bradbury, dirigida por François Truffaut, não precisou de nenhum bombeiro, Montag ou outro qualquer, para atingir um grau de destruição máximo. Esta obra é o resultado da falta de interesse pelo nosso património, não num futuro distante, não num regime totalitário, mas sim na actualidade e num regime democrático. Só falta, mesmo, dizer que a beleza faz as pessoas infelizes e improdutivas, como nesse livro/filme de culto.
Talvez seja a altura de lá voltar para ver o que aconteceu.
Os pintores consideram interessantes as coisas mais inesperadas, não acham?

terça-feira, 27 de maio de 2008

ALEGORIA À VIDA


Vereda no Castelo
Acrílico sobre tela 50x40cm

A minha amiga Anne M. Moor não gostou da minha alegoria à vida, porque falei na morte. A minha alegação não foi muito convincente, porque acabei de ler um post em que diz:
"Pensando no que eu mais gosto - a vida - e na alegoria do António no seu último post, achei um haicai que adorei... Vejam:

a vida é breve,
muda como o vento,
derrete como neve.

by Ana Maria de Souza Melo"

Baseei a minha defesa, na filosofia que tem como princípio o Tao, segundo o qual duas forças complementares estão presentes em tudo o que existe: a força Yin (terra, água, lua) e Yang (céu, fogo, sol). Estas duas forças são antagónicas mas complementares entre si: uma não existe sem a outra... Pensamos na vida, portanto, teremos de pensar na morte. Contribui para o nosso equilíbrio.
Espero que o leitmotiv desta diferença de opiniões, se imponha pelas suas cores primaveris e que consigam sentir o suave perfume das flores, transportado pela fresca brisa da manhã...

domingo, 25 de maio de 2008

CHUVA DE FLORES


Vereda no Castelo
Acrílico sobre tela 50x40cm

A nova tela que estou a fazer é uma vereda do Castelo de Palmela. Estava a pensar só a mostrar depois de acabada mas pareceu-me interessante chamar a atenção para um ou dois pormenores que farão toda a diferença no resultado final que pretendo.
O espaço foi estruturado com a força das pedras que enquadram outra força vital: a força da natureza, representada pelos ramos meio despidos, mas vivos, das árvores. A luz que emana, não ofusca, antes salienta, as cores das flores que pulsam nos seus ramos, e jazem no chão, contrastando com a cor viva do caminho de saibro.
A ligeira brisa que sopra, balança suavemente as folhas e flores dos ramos das árvores, transmitindo a sensação que o Céu está a vibrar em uníssono com a Natureza.
Esta exuberância de cores espero mantê-la controlada para preservar o seu valor representativo da minha paixão pela realidade deslumbrante da Natureza e, ao mesmo tempo, ser uma alegoria à vida: pequenas folhas e flores, jovens e belas nos ramos mais altos das árvores que, agitadas por uma leve brisa, tombam no chão, belas, sim, mas mortas...

quarta-feira, 21 de maio de 2008

OS MOINHOS DA SERRA DO LOURO



Moinhos de Santo Isidro
Acrílico sobre tela 40x50cm

Os moinhos da Serra do Louro
Na postagem anterior expliquei o meu interesse em fazer algumas telas da região da Serra do Louro, em Palmela, que é um ponto estratégico deslumbrante, donde se pode observar o Estuário do Sado e o Estuário do Tejo. As suas encostas servem de pasto a rebanhos de cabras e ovelhas, que devido à flora distinta de outras áreas do Parque Natural da Arrábida, proporcionam o sabor único dos queijos de Azeitão. Depois de concluída a tela mais óbvia, o Castelo de Palmela, acabei por decidir pintar, um outro motivo de interesse constituído pelo grupo de moinhos de vento que polvilham a Serra.
Fotografia de Aníbal Sousa
Estiveram abandonados durante muito tempo, mas alguns já foram recuperados, cumprindo assim o objectivo para que foram criados: moer a farinha para fazer pão, de preferência num forno tradicional alimentado a lenha e rama de pinheiro.
Seleccionada a fotografia mais interessante para as minhas pretensões, comecei por dividir a tela em duas partes iguais, com a intenção de dar o devido destaque aos moinhos. Com esta divisão o céu ganhou uma importância decisiva. As casas, os moinhos e os campos cultivados, foram pintados com a cor impressionista, utilizando, de vez em quando, para certos elementos, a técnica divisionista, para dar a cada pormenor da paisagem a máxima expressividade. Tive em atenção a norma dum mestre que disse que quando faz paisagens, tem de haver nelas algo de figurativo. Por isso, procurei não perder o controlo da sua execução, para permitir o reconhecimento do local. Este constrangimento, não impediu uma certa autonomia da cor ou de acentuar o empastamento de algumas zonas, para exprimir com maior vigor a beleza intemporal da Serra.
Quando vi o resultado do meu trabalho lembrei-me de um génio que se tivesse pintado aquela paisagem, teria como resultado uma visão semelhante à minha: Estou a referir-me, obviamente, a Vincent Van Gogh.

Depois de “Castelo de Palmela”, já acabei “Os moinhos de Santo Isidro” e vou começar um novo quadro para apresentar nas festas de Pinhal Novo. Tenho estado a trabalhar sobre uma certa pressão, devido à aproximação da data do seu início. É por isso, que não tenho podido dar a atenção que gostaria aos blogues dos meus amigos. Prometo recompensá-los depois deste período.
Sugiro um clic sobre o quadro para ver em tamanho maior.

domingo, 18 de maio de 2008

BARREIRO E OS MOINHOS


Moinhos de Alburrica
Óleo sobre tela 75x90cm

Já falei do Barreiro, a vila operária, agora cidade sem operários, que no seu período áureo, tinha uma unidade industrial que, só ela, empregava mais de 10.000 trabalhadores. Conhecida em Portugal pelas suas lutas reivindicativas, esta vila tornou-se um símbolo da oposição contra a ditadura, mas também num símbolo da poluição industrial, bem visível nos fumos verdes e alaranjados que as chaminés lançavam na atmosfera.
Actualmente, as normas ambientais são mais exigentes, mas os problemas continuam.
Para além do moinho de maré que existe na caldeira, os moinhos de vento de Alburrica, devido ao seu enquadramento paisagístico privilegiado, até como símbolo do crescimento social e económico, tornaram-se o ex-líbris da cidade do Barreiro. Apesar da sua reconhecida importância histórica, por causa das modificações ambientais no estuário do Tejo, ou da ondulação provocada pelos catamarãs, ou pelo conjunto destes dois factores, pois como se sabe, um mal nunca vem só, se não forem tomadas medidas para evitar o ataque aos seus alicerces, estes três moinhos estão em risco de ruir, principalmente o Moinho Grande, único no país, segundo alguns historiadores.
Esta tela foi feita a partir duma fotografia que eu próprio tirei. Como habitualmente acontece, não dispensei duas sessões no local, para tirar algumas dúvidas que se mantinham.
No dia em que estive a dar os retoques finais, já com a tela montada no cavalete, um senhor de certa idade fez um comentário assaz elogioso sobre a pintura. Quando me voltei para agradecer as amáveis palavras, comecei assim:
- Olá tio, como está?
O senhor era o meu tio Pedro, que tinha aproveitado a baixa-mar para apanhar umas minhocas e casulos para a pescaria que tinha planeado para essa noite.
Confesso que já não me lembro se fui eu o seu companheiro de pesca!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

FESTA DE PINHAL NOVO (5)


Castelo de Palmela
Acrílico sobre tela 40x50cm

Já assinei a obra! Quer dizer que a considero acabada! Algumas vezes, não assino imediatamente, porque não estou totalmente seguro de que o quadro esteja acabado. Deixo-o pendurado no estúdio para que a comunicação se mantenha, até que a tela me diga o que lhe falta. É um processo que tem resultado. Neste caso, tenho a sensação nítida que a obra está acabada: tudo o que fizer a seguir está a alterar a integridade que sinto nela. Às vezes basta um pequeno traço, uma pequena mancha de cor, para alterar substancialmente uma harmonia... Pensemos no que aconteceria se alterássemos as quatro primeiras notas da Quinta Sinfonia de Beethoven: já foi dito que seria como anular a peça inteira!
Como puderam observar, utilizei inicialmente uma pincelada espessa, carregada de matéria, para se tornar mais expressiva e talvez despertar mais emoções. Tentei encontrar no final um compromisso entre essa pincelada emotiva, e outra mais objectiva, tendo em atenção tanto a construção das formas como a descrição do motivo: Queria que fosse facilmente identificável a Serra do Louro e o Castelo de Palmela.
Deu-me muito prazer fazer esta obra e partilhá-la com os meus amigos, à medida que ia crescendo. Não foram muitos os que comentaram as diversas fases do processo, mas sei que não deixaram de o acompanhar: Estou prestes a atingir as 10.000 visitas, desde que iniciei este espaço, em Setembro de 2007. Talvez noutra altura, se sintam mais à vontade para fazê-lo, pois não tenho, não tenham dúvidas: não são precisos especiais conhecimentos técnicos – a vossa sensibilidade chega e sobra!
A todos, o meu muito obrigado!

terça-feira, 13 de maio de 2008

FESTA DE PINHAL NOVO (4)



E de repente aconteceu... Quase naturalmente, comecei a notar que o perfil do lado direito do Castelo é igual ao da montanha de Sainte-Victoire, aquela suave elevação nos arredores de Aix, que se tornou uma obsessão para Cézanne, nos seus dez últimos anos de vida. Pintou a montanha em trinta óleos e quarenta e cinco aguarelas: se isto não foi uma obsessão, não sei o que será... Bendita ideia fixa! Com esta fixação criou quadros duma beleza insuperável e lançou as bases da pintura moderna. Para um provinciano de carácter brusco e desconfiado, foi obra! Mas, deixemos o panteão dos imortais e voltemos à terra!
No diálogo dos verdes com os ocres e Burnt Sienna (o tom avermelhado da terra), que estavam já secos na tela, começaram a surgir-me as cores de Cézanne. Cada pedaço da tela, estava tecida com a cor vibrante do ocre amarelo, a contrastar com um verde, ora mais sombrio e possante, ora mais claro e luminoso. O movimento do céu continua descendo pelas escarpas, dissolve-se na luz das árvores, das pedras, da terra...
Aqueles azuis e magentas do canto inferior direito da tela, começaram a ganhar vida própria. Em princípio seriam para ser dissolvidos na terra, simples sombras de árvores que só tinham existência na minha imaginação...
Estou a pensar que não vou ter coragem de os assassinar: parece-me que ganharam o direito de viver...
Os meus amigos, o que acham?
Amanhã, terei de decidir da sua vida ou da sua morte! Já repararam, na força que tem um pintor?

domingo, 11 de maio de 2008

FESTA DE PINHAL NOVO (3)



O primeiro objectivo desta sessão foi fazer a cobertura completa da tela com a tinta, duma maneira espontânea, mas controlada. O casario do lado esquerdo foi tratado para salientar os seus volumes, com as suas cores dominantes. As casas dispersas já ficaram integradas na paisagem, como pequenos marcos que conduzem o olhar.
Dediquei especial atenção ao maciço, logo abaixo da estrutura que suporta o castelo, utilizando o mesmo pincel e cores para dar pequenos retoques, com a finalidade de manter a harmonia entre os planos. Para as sombras juntei um pouco de azul ultramarino, enquanto para as partes luminosas misturei o Azo Yellow Deep, que já tinha utilizado para iluminar as casas.
Agora que a estrutura está pronta e unificada com as suas cores de base, parece-me que a tela está pronta para receber as suas cores finais.
Como amanhã tenho outros assuntos a tratar, vai ficar com mais um dia de secagem. Até lá, serão bem-vindos os vossos comentários.

sábado, 10 de maio de 2008

FESTA DE PINHAL NOVO (2)


FESTA DE PINHAL NOVO (2)

O castelo já tomou o protagonismo monumental do quadro. A montanha onde se ergue está com as cores necessárias para que a sensação visual transmitida pela banda dos ocres, conduza naturalmente às cores do céu e ao volume constituído pelo conjunto fortificação e estalagem. Todo o terreno circundante está preparado para receber os verdes que desenham a paisagem.
No primeiro plano, utilizei quantidades generosas de Burnt Sienna, Terrakota e Yellow Ochre, como base para “plantar” a vegetação que povoa os campos tratados. Os pequenos volumes das casas e os caminhos que cortam a paisagem vão servir de guias para conduzir o itinerário do olhar do espectador. Em caso de necessidade, criarei pequenos pontos de interesse com o destaque que será dado aos tufos de plantas.
Começa a afirmar-se uma sequência de tons que constroem a coerência plástica da natureza transformada, mas não atraiçoada.
Tenho resistido à tentação de começar já a aplicar os tons verdes: vou deixá-los para mais tarde, quando toda a tela estiver coberta de cor, para assim poder controlar o resultado final.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

FESTA DE PINHAL NOVO


Castelo de Palmela
Fotografia de Aníbal G. Sousa
Esta fotografia foi tirada pelo meu amigo Aníbal, que é um fotógrafo e caminheiro emérito, conhecedor de todos os recantos da Serra do Louro, e que por isso obtém ângulos pouco habituais, mesmo para os que conhecem a região.


A vez de Palmela

Todos os anos tenho colaborado na festa da minha terra, apresentando um pavilhão com as minhas obras, algumas delas executadas especialmente para a ocasião. Este ano, mantenho a tradição. A festa vai decorrer entre 5 e 10 de Junho.
Pensei que seria interessante ir mostrando o desenvolvimento de uma obra até à sua conclusão. Mostrar a fotografia que serve de base para a composição, a selecção do tamanho, o seu desenho, a escolha das cores, a técnica utilizada, o estilo para tornar o tema mais sedutor.
O plano é, no fim de cada dia, ou depois dum avanço significativo, mostrar as diversas fases do processo de execução e criação.
Se este convite para espreitar o meu processo de criação, resultar nuns momentos agradáveis de convívio, terei muito gosto em repeti-lo para uma outra exposição que tenho agendada para a rentrée.
Na abertura da festa, a Presidente da Câmara de Palmela, Ana Teresa Vicente, acompanhada do Presidente da Junta de Freguesia, Álvaro Amaro, passam por todos os stands, trocando algumas palavras com os feirantes. Tem acontecido, que eu tenho em exposição quadros com paisagens de diversas terras do distrito e, por acaso, a vila de Palmela não tem sido contemplada nessa mostra. Depois dos cumprimentos, tem surgido a pergunta: Para quando um quadro de Palmela?
A resposta está agora a ser construída...


Castelo de Palmela Acrílico sobre tela 40x50cm

Utilizei este formato, tendo em atenção o espaço limitado de que disponho e as características populares da festa.
Depois destas primeiras horas de trabalho, ficou estabelecida a linha do horizonte, a localização de alguns pontos guia e o tom geral da obra. As cores do céu, já estão replicadas no acidentado terreno, para que a harmonia esteja presente desde o início. Estou a trabalhar com as cores puras directamente sobre a tela, para dar uma forte textura ao suporte do motivo principal da obra: o Castelo.
Amanhã, quando voltar a pegar na obra, a tinta acrílica já estará completamente seca. Qualquer correcção que eu queira fazer, tem de ser com uma navalha para raspar a tinta acrílica. É esta a grande diferença para a tinta de óleo: ainda não estaria seca, o que permitiria a sua mistura com as tintas que quisesse utilizar no dia seguinte.
Então, até amanhã!

PS. É natural que vá descurar um pouco, por falta de tempo, a consulta diária que costumo fazer aos blogues dos meus amigos. Espero que me desculpem!

terça-feira, 6 de maio de 2008

LUZ DO FADO



Teia de Luz Acrílico sobre tela 60x40cm

Da minha última exposição, em que o tema foi a mulher, sobrou esta tela... A “Teia de Luz” não foi afinal uma teia de sedução, pelo menos para quem apreciou a mostra. Não sei o que se passou mas a jovem mulher continua em minha casa... Mantenho a dúvida: será que prefere estar comigo, ou não tem nenhum lugar melhor para ser apreciada?

quarta-feira, 30 de abril de 2008

AFRODITE




Afrodite, feiticeira do amor
Óleo sobre tela 120x120cm

Afrodite era uma das dez obras da exposição, a que me referi quando apresentei Vénus.
Na altura, disse que os modelos são banhados por uma luz forte, com cores vivas e quentes, que, se em alguns casos, quase os ocultam, serve sempre para evidenciar a sua beleza e sensualidade. E continuo a pensar assim, porque a pintura deve fazer-nos sonhar com um mundo melhor, mais harmonioso, mais sedutor.

Esta é talvez a deusa mais representada pela arte, quer sob o seu nome grego, quer sob o romano, Vénus. Para além dos nomes, também o seu nascimento causa alguma confusão: para uns, é uma deusa ancestral que nasceu da espuma do mar fertilizado por Urano, o deus do grego do céu. Digamos que esta é a versão softcore. O quadro mais conhecido é “O Nascimento de Vénus”, pintado por Sandro Botticelli em 1482, que se encontra exposto na Galeria dos Uffizi em Florença, em que se vê Vénus emergindo de uma concha, nua, como se impõe, para simbolizar o nascimento da beleza. Noutra versão, ela é a jovem filha de Zeus e Dione, fruto dum amor terreno, com paixão e sexo, ou seja, a versão hardcore. Diz-se que o seu pai, irritado com a sua beleza e a sua vida de prazeres carnais, a casou com Hefesto para ver se ela ganhava juízo. Mal avisado, o marido ainda a tornou mais irresistível, quando lhe ofereceu as mais belas jóias, de tal maneira que a nossa deusa teve filhos de Ares, Dionísio, Hermes e um etc bastante grande que inclui alguns felizes mortais, como o belo Adónis.
Eu não tive nada a ver com o assunto: meu nome é António!

sábado, 26 de abril de 2008

SÉRIE - AS CIDADES DAS EMOÇÕES


Lembras-te?


Lisboa, Convento do Carmo
Acrílico sobre tela 60x70cm

Dulce, a minha primeira obra-prima

Era uma vez um sábado à tarde de um dia de Verão, com aquele céu azul de que só os pintores não gostam: sabem que, por muito que tentem, a realidade suplanta sempre a sua obra! Saímos de casa, eu, a minha mulher e as nossas duas filhas, Elsa de cinco anos e Dulce de seis anos, e atravessámos a ponte 25 de Abril, com destino ao Parque Eduardo VII, em Lisboa. A minha mulher tinha nessa tarde uma reunião. Ficou combinado que, enquanto ela ia cumprir uma árdua missão de trabalho, eu iria ficar com as crianças a brincar no parque! Mulher sofre! Como eu estava enganado...
Num primeiro momento, o Paraíso: crianças (eu incluído) a jogarem às escondidas, gargalhadas joviais, o prazer da descoberta em cada gesto, em cada corrida...
De repente, Elsa começa a chorar, a chorar, a chorar... Dulce, oferece-lhe tudo o que tem. O que não tem, inventa – um passarinho azul na mão, no jardim rouba flores de todas as cores... Eu faço o pino, subo às árvores, guincho como um macaco, grito como Tarzan... O choro sempre a aumentar! Dulce, a fazer beicinho, vai dizendo: “Bebé não chora, bebé não chora!”. Em três horas pode ter-se uma boa noção do que é o Inferno!
O grande drama, sabem qual foi? Não havia telemóveis, porque quando a minha mulher chegou, Elsa calou-se! Just like that!
Até hoje ainda não arranjámos explicação para o acontecido!
A minha filha mais nova formou-se em Marketing e Publicidade. Eu não tive nenhuma influência na sua opção: na altura, eu era Group Product Manager, no Marketing da Colgate-Palmolive Portuguesa. Pronto, se calhar tive um bocadinho de responsabilidade...
A minha filha mais velha, Dulce de seu nome (como era o da minha mãe), formou-se na Fundação Ricardo Espírito Santo e, no Instituto Piaget, tirou a licenciatura para Professora de Ensino Básico, variante de Educação Visual e Tecnológica, com a média de 17 valores, estágio 18 valores. Não é uma média fabulosa? Actualmente, está a dar aulas de EVT. Não tive nada a ver com essa opção: na altura ainda não pintava! Limitava-me a fazer uns bonecos para elas se rirem!
Esta minha filha já nasceu assim talentosa. No dia de dos meus anos, ofereceu-me este desenho como prenda. Aquele cabeludo, sou eu a treinar na mesa de bilhar que tinha em casa, porque jogava no Sport Lisboa e Benfica, e ela está a oferecer-me os chocolates de que eu tanto gosto. Na cabeceira da cama, tenho outro desenho lindo, que ela fez a partir duma fotografia, com o seu retrato e o da irmã.
E sabem uma coisa? Apesar de tudo o que está a acontecer com a Escola e o ensino em Portugal, ela não admite outra hipótese: quer ser professora!
O seu indomável espírito, foi buscá-lo, não tenho dúvida, aos genes da mãe.
Para o bem e para o mal, o seu gosto artístico e o masoquismo, só podem ser meus...

terça-feira, 22 de abril de 2008

MEMORIES









Estás cansada?
Óleo sobre Tela 36x45cm




Era uma vez, um domingo de Verão, há muito, muito tempo, quando saí de casa para dar um passeio no campo, com a minha filha, Elsa. Levei comigo a máquina fotográfica para registar aqueles momentos de liberdade, já que os cheiros do ar, da terra e das flores silvestres, apenas se podem guardar na nossa memória. Seguíamos por um caminho estreito com a pequenita a apanhar todas as flores que podia para levar à mãe e à irmã.



Eis senão, quando, numa curva do caminho, vemos uma senhora de provecta idade sentada numa pedra. Cumprimentei-a e queria seguir, quando me apercebi que Elsa se tinha sentado ao lado dela, a olhar intrigada para a sua cara, e ouvi perguntar: “Estás cansada? O meu pai tem água para mim, mas se quiseres podes bebê-la!” A senhora sorriu e disse que lhe agradecia mas não precisava.
Quando nos despedimos, a velhota disse-me:
“ O senhor é feliz porque tem uma filha muito bonita, mas também com muito bom coração... e quem nasce assim é para toda a vida!”

quinta-feira, 17 de abril de 2008

NUESTROS HERMANOS


Porquê os “Aguaviva”?
Este conjunto espanhol inspirou a formação de um grupo em Alhos Vedros, com o nome de Aqueduto, no final dos anos sessenta, que se manteve em actividade até finais dos anos setenta, do qual eu fazia parte. Cantávamos, quando não éramos impedidos pela Censura, em Associações, Clubes, Pavilhões, ou na rua, quando a polícia não permitia a nossa entrada nos recintos. O nosso reportório era constituído por letras e canções de nossa autoria, mas incluíamos “Aguaviva” e Zeca Afonso, como preito de homenagem a estas figuras.
Aqueduto, como Aguaviva, “llegó en el momenyo preciso, como si hubiera sido un diseño cuidadosamente programado para aparecer cuando hacia falta y para decir las cosas que la gente necesitaba escuchar”.



Tulipas Óleo sobre tela 105x90cm
Apresento esta tela (esta é daquelas que eu não sei onde para), como homenagem a nuestros hermanos, porque tem as cores da bandeira portuguesa e espanhola.

Um comentário de “Fermina Daza” à entrada anterior, motivou a resposta de Luís Carlos, um dos bloguenígenas, como dizem os amigos brasileiros do Prozac Café, colaborador no blogue “estórias de alhos vedros”, que resolveu colocar o seu belo poema, Iberia, no comentário. Considerei uma pena ficar escondido, não só pela sua beleza, mas também pelo seu significado, numa intervenção que poderia passar despercebida. Resolvi, por isso, dar-lhe o destaque que merece.

Amigo António, a doce poesia e os belos sentimentos da tua acompanhante de viagem e nuestra hermana "fermina daza", mais a forte saudade de um Porto Sentido e a tua amizade, trouxeram-me à memória um poema que dediquei a Espanha. Aproveito para o deixar aqui e vou dedicá-lo em teu nome, a todos os amigos que por aqui passam, e em particular, a todos nuestros hermanos, fazendo votos que a proximidade geográfica e linguística, se traduza cada vez mais numa proximidade amistosa, afectiva, fraterna e solidária. A aproximação cada vez maior entre a Língua de Camões e a Língua de Cervantes, decerto, trarão de novo novos mundos ao mundo, desta vez já em paz!

Então o poema diz assim:


IBERIA

Hubo un tiempo
en que peleámos
infantiles nos matámos uno al otro

Hubo mismo un tiempo
en el que exageradamiente me hiciste tuyo:
llegaste y reynaste, me tomando todo
hasta que de nuevo nos matámos uno al otro.

Esos tiempos cambiáran.
Hoy te quiero solamente amiga
y signo de eso mismo es hacer
de mi canto tu língua,
mostrar te que al meter me en tu piel
te quiero respectar como eres
como se de mi mismo se tratara,
te quiero plenamente comprender
y se necessario discordar,
pero desta vez ya en paz.

Al diante de hoy mano com mano
caminãremos.

a um anónimo António,
a Espanha!,
com os devidos agradecimentos ao Manuel João que me conseguiu a tradução.
17 de Abril de 2008 9:16

segunda-feira, 14 de abril de 2008

AS CIDADES DAS EMOÇÕES - PORTO





Porto Sentido
Óleo sobre Tela 120x70cm

Num comentário ao quadro anterior "Porto - A Casa Amarela", Luis Santos transcreveu o poema "Porto Sentido" de Rui Veloso. Mal sabia o meu bom amigo, que eu tinha feito um quadro com o nome do poema. Como está na linha do anterior, faz todo o sentido que o apresente, juntamente com a canção da dupla Carlos Tê / Rui Veloso.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

SÉRIE - AS CIDADES DAS EMOÇÕES


Porto Casa Amarela
Óleo sobre tela 100x85cm

Não vou repetir aquilo que senti quando descobri, como pintor, o Porto.
Sobre esta tela, um meu amigo, disse-me que gostava de toda a composição, que tinha muita vida, mas que não gostava do destaque da casa amarela: sentia que era demasiado agressiva. Respondi-lhe que era esse exactamente o objectivo que pretendia: a casa estava colocada na zona da tela a que os clássicos chamam de secção de ouro, para favorecer no quadro o seu aspecto tridimensional ou a sua profundidade: há casas que nos parecem mais próximas e outras mais afastadas, embora saibamos da bidimensionalidade da tela.
O azul forte do céu e do rio, contrasta com o quase monocromatismo que utilizei, deliberadamente, para destacar as janelas que povoam todo o conjunto, sugerindo pessoas que apenas se adivinham, se sentem...
Termino com o “pedido de desculpas” do meu amigo. Quando visitou o Porto, passou na Ribeira e viu ao vivo a Casa Amarela: Estava lá, onde eu a tinha pintado e destacava-se de todo o conjunto, pela sua vibrante cor!

segunda-feira, 7 de abril de 2008

SÉRIE ALDEIAS HISTÓRICAS - PIÓDÃO





Piódão Óleo sobre tela 60x80cm

Piódão é uma aldeia classificada como Imóvel de Interesse Público. Por entre as agrestes escarpas e os vales profundos da Serra do Açor, a aldeia ergue-se como num grande anfiteatro natural. A matéria-prima utilizada na construção das casas e nos pavimentos é o xisto retirado das encostas da serra. Os telhados das casas são feitos de lousa. O azul, cor de bons presságios dos árabes, que marca o contorno das portas e janelas, compõe um cenário, que não precisa da criatividade do pintor porque de cada pedra e do seu conjunto resultam uma harmonia perfeita... por acaso: o azul que pinta as portas e janelas deve-se ao isolamento da aldeia. Diz-se que a chegada de uma lata de tinta, levou a que todos a utilizassem, e agora faz parte integrante do seu património. As casas de xisto contrastando com a brancura da Igreja Matriz do século XVII, formam um conjunto arquitectónico que fica guardado na nossa memória, para não mais ser esquecido. Um verdadeiro monumento que serve para confirmar que o homem se consegue adaptar aos mais inóspitos locais.
Saí da aldeia com uma vontade enorme de chegar a casa para começar a pintar o que tinha visto. Desta vez, cumpri o plano estabelecido. Utilizei as pequenas pinceladas de cor pura, colocadas lado a lado com as suas complementares, para dar a vibração de cor que se sente, quando se observa a aldeia, iluminada pela luz do sol. Pretendi que a utilização de tintas puras, separadas para se misturarem na retina do observador, numa pincelada enérgica, servisse para transmitir a dureza das pedras numa convivência harmoniosa com a arquitectura deste local inestimável.
Os planos de cor laboriosamente justapostos e a tensão que mantêm com os pontos de luz que definem o motivo, procuram traduzir, mais do que a dureza da pedra, a estrutura sólida em que em que assenta a Natureza, em contraste com um universo só perceptível através da imaginação, num mundo de cavaleiros andantes e damas em apuros que a sua origem medieval sugere.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

POLUIÇÃO



CUF (Companhia União Fabril)
Óleo sobre tela

“Adivinharam: em casa dos nossos amigos. Está linda e não está só: tem por companhia outra com a qual faz um contraste absolutamente arrepiante...
Eu depois mostro, prometo.”

Foi assim que terminei a minha entrada “Praia da Luz”. O quadro que está a fazer-lhe companhia é “Cuf”.
Esta tela é uma recreação de uma pintura de Kokoschka, pintor do expressionismo alemão (1886-1980), nascido em Pochlarn, perto de Viena.
Quem a baptizou foi a minha amiga que, para além da sua paixão à primeira vista pela obra, logo a baptizou de Cuf, porque as suas cores estranhas, sobretudo do céu, lhe faziam lembrar uma das principais unidades industriais portuguesas, situada no Barreiro. No seu período de ouro, esta unidade empregava mais de 10.000 trabalhadores. As suas lutas reivindicativas, a sua resistência e luta contra as injustiças, transformaram o Barreiro num símbolo da luta contra a ditadura, mas também num símbolo de poluição, bem visível nos fumos verdes e alaranjados que as chaminés lançavam na atmosfera.
Não utilizei nesta obra nenhuma tinta preta. Consegui essa ausência de cor com a combinação de Cadmium Red Hue e Prussian Blue Hue, para sublinhar a intensidade vibrante, cheia de enganadores matizes luminosos, das poluídas águas do rio.
Parece-me que assim se consegue o melhor de dois mundos: chamar a atenção para um problema da Humanidade, sem ser agressivo a ponto de causar mal-estar ao observador, tornando-o mais receptivo, julgo eu, à mensagem que se pretende passar.
É assim que entendo a Arte; a sua justificação é a sua Beleza!

segunda-feira, 31 de março de 2008

FADO, MALHOA E O QUE MAIS ADIANTE SE VERÁ...




Vai um copo?
Acrílico sobre tela 100x120cm

Fado, Malhoa e o que mais adiante se verá...

Estava a jantar com minha mulher,
algo que não faço tantas vezes como devia
num restaurante de que eu gosto muito, porque para além da excelente qualidade da comida,
o que por si só, já seria um bom motivo para o frequentar
também aprecio o bom gosto das telas expostas,
são todas minhas
quando o meu amigo Bernardo, dono do restaurante,
curiosamente, quando estive no Rio de Janeiro, fiz questão de passar um dia na “Ilha do Bernardo”, para lhe trazer uma lembrança da “sua” ilha
me pediu para atender um senhor, construtor civil, que queria fazer-me um pedido.
normalmente é para ver se eu concedo um desconto nalguma obra exposta
Acedi, sem grande esperança. Afinal, estava redondamente enganado com as suas intenções!
acontece aos melhores!
O senhor queria que eu lhe fizesse uma tela, grande,
grande – substantivo, não, grande – adjectivo
para colocar na adega da sua casa, que seria inaugurada dentro de alguns meses. Quando comecei a dar a desculpa habitual para me esquivar a aceitar compromissos,
estilo: “Não tenho tempo! Estou muito ocupado”
o senhor não quis ouvir as minhas razões
era construtor civil, lembram-se?
e disse-me que até tinha ideia do que queria. Aí eu fiquei atento!
construtor civil com ideias, coisa estranha!
Queria que eu fizesse um quadro ao estilo de Malhoa,
José Malhoa, pintor português, naturalista, 1855-1933
com aquela conhecidíssima figura da sua obra “Festejando o S. Martinho”.
repetida em reproduções baratas, ad nauseum
Achei um bom desafio: não tinha muita paciência para pintar como Malhoa,
à data da sua morte o seu estilo já era contestado pelos mais novos
mas como também não tinha dinheiro, resolvi aceitar a encomenda.
mal como se verá!
Para não fazer uma cópia do óbvio, resolvi criar uma composição com duas obras de Malhoa e seleccionar cartazes da época
para o meu ego não ficar muito ferido
para pregar nas paredes da tasca onde se iria passar a cena.
Triste!
Para dar algum realismo às paredes, adicionei areia à tinta,
as pintinhas, suponho que parecem aquelas coisas que as moscas deixam nas paredes
e o claro-escuro do interior, mais escuro ainda, como é costume para ouvir os acordes plangentes da guitarra e os sons maviosos do cantor de fado.
e ninguém notar se quisermos dormir uma soneca!
Quando a obra ficou pronta, combinei com o meu amigo Bernardo, colocá-la no restaurante e o senhor construtor passar por lá para a poder apreciar em todo o seu esplendor. Adorou-a! Mas
há sempre um mas
não lhe convinha fazer mais despesas, naquela altura!
a crise toca a todos, não é? Menos aos pintores, acho eu...
E assim fiquei com uma obra que está exposta no “Restaurante Napolitano” do meu amigo Bernardo.
acreditam que já foi mandada guardar por um senhor que teve de sair para os Açores?
Até hoje!