segunda-feira, 24 de março de 2008

PRAIA DA LUZ




Praia da Luz Óleo sobre tela 70x90cm

Durante muitos anos, as férias da família Tapadinhas e da família Simplício foram passadas na Praia da Luz, aquela que ficou tristemente célebre com o desaparecimento da pequena Maddie McCan... A Praia da Luz de agora, não tem muito a ver com a que fez as nossas delícias e dos nossos filhos – estávamos no início dos anos oitenta. Qualquer semelhança com a realidade actual, é pura coincidência.
Já revisitei os locais que permanecem na minha memória... Infelizmente, não há qualquer correspondência com a situação actual: desapareceram os campos de cultivo e as pastagens onde passávamos algumas manhãs a apanhar caracóis, os aldeamentos turísticos afogaram as poucas casas tradicionais que restam, os pescadores são agora empregados da indústria hoteleira, os pastores e os agricultores são trabalhadores da construção civil e os seus filhos vendem apartamentos em time-sharing...
Sobre a fundação da povoação da Luz existem documentos que indicam o ano de 1673. A casa onde passávamos as férias, não era dessa altura mas tinha todos os sinais de antiguidade que tornavam cada ano de férias um acontecimento marcante na vida de todos nós, até hoje...
Um dia, a rever fotografias dessa época, resolvi fazer uma tela que registasse esses tempos, tão longínquos, como o dos dinossáurios – porque não voltam mais...
Escolhi, para lhe dar um sabor de época, a técnica do divisionismo ou pontilismo, assim chamada por derivar de pequenos pontos de cor pura, deixando que seja a retina do observador que faça a sua mistura para obter as imagens coloridas. Numa pincelada vermelha com fundo branco o pintor tem de ter em conta que esse branco é tingido com a sua cor complementar: o verde. No caso do amarelo será o violeta; no caso do azul o laranja. As cores atingem a sua máxima intensidade quando ao lado das suas complementares, segundo a lei do contraste.
Sabem onde está esta obra?
Adivinharam: em casa dos meus amigos. Está linda e não está só: tem por companhia outra com a qual faz um contraste absolutamente arrepiante...
Eu depois mostro, prometo.

quarta-feira, 19 de março de 2008

SENHOR JESUS DAS CHAGAS




Procissão Senhor Jesus das Chagas
Óleo sobre tela 80X70cm

Procissão
Recebi a chamada de uma amiga que me pediu para colaborar na angariação de fundos, para a Misericórdia do Barreiro. A sua ideia era organizar, com quadros doados por um vasto leque de artistas, uma exposição de pintura com uma característica especial: Todos os quadros teriam o mesmo preço, independentemente do seu valor comercial, ou da notoriedade do pintor. Concordei com o pedido e acertei a data da entrega.
Seleccionar uma obra para doação é menos complicado do que avaliar professores...
Quando percorri mentalmente as que tinha em casa e que eu considerava concluídas, lembrei-me, quase de imediato, da solução perfeita para o problema: Tinha recentemente dado por acabado um trabalho que tomou conta de mim, seguindo um caminho que eu nunca tinha imaginado. Passo a contar:
Num belo Domingo de Abril, acho que foi a 16, data do meu casamento, fui com a família às tradicionais festas de Sesimbra.
Era dia de procissão e quando passou o andor com a imagem do Senhor Jesus das Chagas, fiquei impressionado: A imagem do Senhor, de alguma maneira falou comigo. Não era minha intenção mas acompanhei durante algum tempo a procissão, para tirar fotografias.
Quando finalmente tive as fotos em meu poder, o maior problema foi seleccionar aquela que seria melhor para a tela que tinha projectado. Depois de um sem número de esboços acabei por me decidir por uma que cumpria algumas das premissas que tinha imposto: Cristo não podia olhar de frente, porque os olhos das imagens não têm beleza, mas tinha de estar em primeiro plano. Queria dar nota do envolvimento da multidão de devotos e das forças vivas que acompanham estas cerimónias. Feita a escolha, pus mãos à obra.
Não tive qualquer espécie de problema com o esboço que fiz. Tinha na minha memória, nítidas, as cores que queria plasmar na tela. Mas... as cores do Cristo na imagem, ficavam mortas, como as dos bonecos de barro, e eu não gostava do que via... A pouco e pouco, fui trazendo vida à imagem com as cores da carne palpitante e do
“sangue a gorgolejar das artérias abertas
pressuroso e vivo
como vermelhas minhocas despertas...”
Tanto realismo colocou Jesus de castigo no meu estúdio: Na minha casa todos ficavam impressionados com o Cristo sofredor e cabisbaixo... – Outra vez – pensei. Esta imagem, do século XVI, segundo a lenda, foi lançada ao mar pela mulher de Henrique VIII, quando da revolta dos anglicanos contra o papado, e recuperada perto do Cabo Espichel. Obra sobre um tema religioso, que não tinha grande futuro na minha casa.
Solução perfeita para uma oferta à Misericórdia, não acham?
No dia da inauguração da exposição, quando comecei a dar a volta para ver os quadros expostos, ao chegar ao meu, já tinha o sinal de vendido. Durante o beberete, a minha amiga apresentou-me a senhora que comprara a obra e que queria falar comigo. Depois das banalidades sociais da ocasião, a senhora disse-me:
– Quando entrei, vi imediatamente o Senhor Jesus das Chagas, de que sou muito devota. A expressão que lhe deu, apesar da sua situação, não revela sofrimento e traz-me muita paz e conforto. É por isso que o quero na minha casa – disse-me, com os olhos a brilhar.
A tristeza e o sofrimento do Senhor Jesus das Chagas, no meu lar, transformou-se, por milagre, em paz e conforto, na casa da devota senhora.

Feliz Páscoa para Todos!

segunda-feira, 17 de março de 2008

SÉRIE VILAS HISTÓRICAS - MOITA




Moita Junto ao Cais
Óleo sobre tela 50x70cm






Caldeira da Moita
Óleo sobre tela 45x55cm
(Ao fundo, por baixo do plátano mais à esquerda, estou eu a jogar xadrez com os meus amigos. Não liguem às cervejas em cima das mesas, porque o resultado dos jogos ali, ao ar livre, é o que menos interessa...)



Estas duas telas ilustram o local da Moita, que foi recentemente restituído à população com obras de fundo que visam reaproximar as populações ao seu rio Tejo.
Durante o período que permaneci no local para executar estas obras, aconteceram os normais contactos com os surpreendidos passeantes. Os mais interessantes resultaram dos alunos da escola próxima, que me interrogaram sobre diversos pormenores acerca das tintas e outros materiais utilizados. Um deles, com muita graça, perguntou-me se eu lhe dava uma ajuda para melhorar os seus trabalhos de Educação Visual.
Na minha entrada de 10 de Fevereiro, mostro as lamas e sapais onde as colónias de flamingos se alimentam dos macroinvertebrados (crustáceos, poliquetas, bivalves), durante a maré vazia.
Num passeio pela zona ribeirinha...

FLAMINGOS EM TERRA...
Já há muito tempo que não me acontecia: no dia 27 de Outubro, Domingo de mercado na Moita, tive um ataque de fúria.
Estava um dia lindo: um céu sem nuvens, um sol radioso com aquela temperatura e luminosidade, que só alguns dias de Outono, nos oferecem.
Resolvi ir ver pessoas e coisas ao mercado. Conduzi o automóvel para o amplo parque de estacionamento junto à Câmara da Moita. Chegaram dois arrumadores a discutir, com veemência, qual deles tinha direito à moeda virtual que eu possivelmente iria desembolsar. Nenhum deles tinha cartão e muito menos uma farda, que me permitisse resolver com justiça, tão acalorada demanda. Como não quis ser injusto paguei aos dois. Estava um dia lindo, lembram-se?
Enquanto caminhava lentamente pela marginal, admirava o batalhão de flamingos que, ao longo das margens do rio, filtravam os pequenos organismos que constituem a sua alimentação. A vida tem destas aparentes contradições: uma ave com formas tão elegantes, com cores tão belas, para se alimentar, passa o tempo com a cabeça mergulhada no lodo...
Cheguei à zona das primeiras tendas e bancas. O colorido habitual, mas sempre renovado para os meus olhos treinados a distinguir e registar novas combinações de cores, de luzes, de sombras...
De repente, a minha paz de espírito foi sacudida por um terramoto que abalou a minha comunhão com a Natureza, a minha confiança nos superiores destinos da Humanidade.
Frente ao lar “Abrigo do Tejo” está a escultura “Vento à Barra”, do artista banheirense Pedro Miranda da Silva, que homenageia a figura do marítimo na sua relação com o rio e com uma das suas mais belas e características embarcações – o Varino.
Nem o seu autor reconheceria a obra, submersa num mar de fios, cordas e cabos que a ligavam às tendas e árvores circundantes. Todas as reentrâncias, ângulos, protuberâncias e cavidades da escultura estavam preenchidos com mochilas, bonecos de plástico, cães de porcelana, roupas, canas de pesca.... A peanha do monumento estava atapetada (na verdadeira acepção da palavra), com tapetes e servia de bancada onde compradores e vendedores pousavam os couratos e as garrafas de cerveja, para apreciar os artigos expostos e concluir as suas transacções.
A Câmara da Moita dotou alguns espaços públicos com esculturas, num esforço louvável de aproximar a Arte das pessoas. Só que algumas dessas pessoas, na sua luta pela sobrevivência, na tentativa de obter resultados com o menor esforço, fazem como o flamingo: não vêem além do seu bico/nariz. Não temos nada com isso... desde que não impeçam outros de apreciar valores mais altos.
Mas, senhores... Então e os fiscais e as forças da ordem? Será que ficam a ver passar os flamingos?

quinta-feira, 13 de março de 2008

CAFÉ




Convite para um café
Carvão sobre papel Canson 40x50cm

- Quero uma bica!
Quase sempre, quando chego a um café, pastelaria, casa de chá, restaurante, bar, discoteca, tasca, cantina, taberna, e peço um café, ficam a olhar para mim com um olhar de enfado tão intenso que me dá vontade de cancelar o pedido e apresentar as minhas desculpas por ser tão ignorante.
- O café é normal?
E eu, obediente, respondo:
- Sim, é normal.
A minha frustração é que eu não queria responder. Se tivesse coragem para enfrentar uma acalorada discussão devia perguntar:
- Para si, o que é um café normal?
O empregado ficaria a olhar para mim, a pensar: “ Este gajo ou é estúpido todos os dias, ou tem a mania que é engraçado...” e diria o quê? À sua frente abria-se, de repente, um mundo de hipóteses, porque até para o café o conceito de normalidade varia com os locais e épocas.
Para um transalpino seria um pouco de espuma de café servido numa minúscula chávena bem aquecida, italiana, sem curvas, mas com muita espuma.
Para um americano, seria uma chávena, tipo balde, cheia até acima com um líquido acastanhado, a que eles curiosamente chamam “black”.
Se pedir um café em Espanha, trazem-lhe uma chávena de chá com um líquido castanho claro, obtido com uma mistura de café (?), água e leite, morna como a água do banho para o bebé. Para obter a bebida desejada é preciso pedir “café solo”.
No Porto, se pedir um café leva com uma chávena de café de saco e se protestar dizendo que é de máquina fica a saber que devia pedir “cimbalino”, nome obtido das primeiras máquinas que tiravam o café, cuja marca era “Cimbali”.
Para um turco, um café normal é uma chávena de chá cheia de borras de café, onde se vislumbra um líquido negro que se deve beber sem agitar as adormecidas borras.
Se pedir um café em Amsterdão, o normal é receber um café com natas. Para beber o que quer, terá de pedir “expresso”.
No Brasil não há café: só cafezinho. Depois de pedir, pode acontecer tudo o que eu disse para outros países...
...E é assim em toda a nossa vida: Pensar e agir “normal” é perigoso!

segunda-feira, 10 de março de 2008

EM ROMA, SÊ ROMANO




Mercado Jemaã El FnaTinta da China sobre papel 20x25
Sempre que visito um país, tiro apontamentos sobre os aspectos que mais me impressionam. Na minha terceira visita a Marrocos, fui finalmente a Marraquexe, a porta do deserto, e à praça que é o centro do mundo.

Em Roma, sê romano!
Parecia estar a atender o chamamento do muezim para a oração da noite: nesse momento estava a fechar a porta do quarto, onde deixara as malas, ansioso por sair dos portões do Club Med, que me isolava do mundo fervilhante de Marraquexe apenas entrevisto na pequena viagem de autocarro.
Antes de chegar à rua, já a cidade nos impõe o seu sortilégio: o barulho denso dos automóveis e motorizadas, e o bater ritmado dos cascos dos cavalos no asfalto martelam-nos os ouvidos; os cheiros dos gases de óleo e gasolina queimados, misturados com o odor mais consistente dos animais invadem-nos as narinas.
Na rua, a visão é do caos com uma só ordem: a desordem. Na avenida, larga como um campo de futebol sem marcações, circulam carruagens puxadas por parelhas de cavalos, carroças puxadas por burros, táxis, autocarros, motorizadas, bicicletas, todos a tentar fazer a ultrapassagem do vizinho da frente. Nesta competição, nem sempre ganha o mais forte: o automóvel mais moderno, arrisca-se a todo o momento a ser ultrapassado por um burro esperto, que consegue passar a carroça entre o intervalo dos carros. Nos poucos sinais que existem, quando cai o vermelho, os que estão na frente param - é esse o seu mal. Os que vêm atrás aproveitam e vão-se colocando sucessivamente à frente do que já parou. Os que estão junto ao sinal vêem aparecer o verde e reagem primeiro: ganham assim uns lugares na partida, ficando a corrida relançada, com hipóteses de vitória para todos.
Depois de andar algumas dezenas de metros, a confusão parece aumentar. Nós, peões, já não temos passeios e os motoristas parecem ter enlouquecido: não há rua, nem sentido de trânsito. Estamos na praça Jemaã El Fna, com superfície semelhante ao Terreiro do Paço, onde desaguam Tejos de ruas estreitas, de carros e pessoas.
Num dos lados, há uma muralha de tendas de comida, autêntica paleta de cores quentes: açafrão, caril, malaguetas, pimentos. Mais para o centro, a multidão ornamenta a praça em canteiros circulares de homens, que apreciam o trabalho dos ginastas em jogos de forças combinadas; alguns ouvem grupos musicais que tocam música tradicional, constituidos por um violino e dois ou três tambores; outros preferem rir-se das habilidades dos macacos amestrados a imitar pessoas; outros escutam, atentamente, alguém que diz não sei o quê, com grande convicção e energia; outros, ainda, gostam do terror atávico causado pelas serpentes que parecem dançar ao som do pífaro do seu encantador. Por entre os grupos andam homens de fatos encarnados e verdes, com pratos de metal amarelo, grandes chapéus na cabeça, a tocar em pequenos tambores, que oferecem a sua beleza para figurar numa fotografia, a troco de algumas moedas. Outros arranjaram uma estratégia mais simples para ganhar dinheiro: tocam um tamborzito, fazem uma careta e, se nem sempre provocam um sorriso, quase sempre arrancam uma moeda.
Metade da praça é disputada, a palmo, por peões, que tentam passar na terra de ninguém que a qualquer momento pode ser atravessada por um veículo vindo de qualquer ponto cardeal.
Estranhamente, não se ouve buzinar os automóveis: talvez o barulho dos motores, o bruá da multidão, os guinchos dos animais, o toque dos tambores, o silvar das serpentes, não o deixem ouvir, ou, com maior probalidade, o nosso cérebro se recuse a registar esse som, por mais habitual, dando prioridade a tudo o que é novo: cheiros, línguas, cores, gente, animais.
É difícil (impossível, direi), ser apenas espectador: logo que olhamos para alguma coisa, o vendedor atento, pergunta-nos a nacionalidade, e oferece o objecto, por um determinado preço. Ser português, neste caso, é uma vantagem, porque acham que nós somos pobres como eles. Conversamos, discutimos, num linguajar franco-anglo-luso-espanhol; quase nos insultamos, porque é assim nas grandes famílias. Depois de consumado o negócio, é assinado o tratado de paz. Por mim, apetece-me sempre abraçar o meu novo amigo, que teve a gentileza de vender um objecto por um preço tão acessível.
Ainda estava a fazer as contas com a minha esferográfica e já ele me estava a propor a sua troca por um espelhinho, com um aro de metal…
E tem sido assim todos os dias… mesmo no dia 11 de Setembro de 2001, nesta terra, não muito longe daquela que viu nascer três grandes religiões.
Nos escombros e trevas que a televisão teima em mostrar, há uma luz que ilumina e elimina o nosso terror: do outro lado, afinal, estão homens como nós.
Eu, agora, vou para o meu quarto e juro que vou pensar numa estratégia, para comprar pelo melhor preço um casaco de cabedal que vi numa loja.
Guerra, qual guerra?

sexta-feira, 7 de março de 2008

DIA INTERNACIONAL DA MULHER




Isto não é uma flor
Acrílico sobre papel Canson
Letras com caneta PITT artist pen Indian ink

No dia 8 de Março de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica, que ganhavam um terço do salário dos homens, reivindicaram a redução de um horário de trabalho, de 16 para 10 horas, por dia. Foram encerradas na fábrica a que alguém lançou fogo. Morreram queimadas 130 mulheres. Num país asiático? Africano? Não! Isto aconteceu nos Estados unidos da América, na cidade de New York...

segunda-feira, 3 de março de 2008

Trovante - Perdidamente (legendado)

AS DEUSAS DO AMOR


Três Girassóis Óleo sobre tela 50x40cm


Onze Girassóis Óleo sobre tela 73x60cm

As deusas do amor

Afrodite era a deusa grega do amor e da beleza. Usava um cinto mágico para ninguém resistir aos seu encantos...
Para mim, todas as amigas têm um “cinto” mágico que me aperta a garganta sempre que resolvem lançar-me os seus feitiços:
Ana, Anne, Gi, Irene, Isabel, Laura, Madalena, Miss Slim, Moony, Nocturna, Paula, She, Zulma...
Das deusas deste Olimpo quem despoletou a necessidade imperiosa de dedicar-lhes uma postagem, foi She...
Hoje de manhã avisou-me que Zulma (são ou não nomes de Deusas?), tinha uma prenda para mim e que ela iria reforçá-la... com mais feitiços: rosas mágicas do seu jardim... Mas, não me esqueci que Nocturna abriu um blog para colocar algumas das minhas obras, o que me deixou envergonhado como um colegial apanhado em falta (foi tão bom!), que Anne se serviu de uma obra minha para ilustrar um poema, ou que Irene já me informou que está a pensar utilizar-me num futuro trabalho...
Devo estar a esquecer-me de alguém, mas para compensar esta possível falta tenho um brinde que eu adoro: girassóis...
Não aceito protestos dos amigos. Estou mesmo a ouvir, Jorge ou Javier ou... a dizer:
- Então, e para mim não há nada?
Ao que eu respondo:
- Não irão perder pela demora, meus amigos!
Façam favor de tirar um girassol das obras que tenho expostas. Há uma curiosidade com estas flores. Já vos disse que tenho uma caturra que imita o meu assobio no hino nacional, na quinta sinfonia de Beethoven, no jingle bells, entre outras músicas. Ela come uma mistura de sementes. É muito temperamental, como todas as divas, e espalha-as por todo o lado. Recolho as sementes do chão e atiro-as para o terreno para que outras aves as aproveitem. Há uns anos atrás, duma dessas sementes, nasceu um espectacular girassol, com o qual fui gastando rolos e rolos de fotografias, de todos os ângulos e com todas as situações de sol e sombra. A obra com os três girassóis faz parte da minha colecção particular, porque foi feita directamente no local. E eu acho que não foi inocente o nascimento dessa flor no meu terreno: Van Gogh esteve lá a cuidar dele...

sábado, 1 de março de 2008

Cancao do Mar

Canção do Mar foi cantada por Amália Rodrigues em 1955. Dulce Pontes tem esta canção gravada no seu álbum "Lágrimas" de 1993.

ONDE A TERRA ACABA...


Onde a terra acaba e o mar começa...
Acrílico e óleo sobre tela colado sobre tela 70x80cm

Estava à procura de um tema para a postagem, quando me apareceu a foto de uma tela, feita de pormenores que fui seleccionando de experiências para obras futuras. Curiosamente, esta obra relaciona-se com a anterior: foi comprada numa exposição. Só mais tarde, fiquei a saber que tinham sido os meus amigos, quando me telefonaram a dizer (são uns brincalhões!) que se a quisesse voltar a ver, passasse lá por casa.
Desde então, tenho-me servido do pretexto de rever as obras para apreciar o belo Moscatel J. M. Fonseca que têm na sua garrafeira. E, para ser sincero, rever esta obra que está na parede defronte da lareira... para não voltar a falar de "Cenáculo"...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

CENÁCULO


Cenáculo Acrílico sobre tela Díptico 2x60x100cm


Cenáculo Peça 1


Cenáculo Peça 2

Cenáculo, nome dado à sala, à reunião, em que Jesus Cristo celebrou a ceia. Por ext.
Reunião qualquer de pessoas unidas para um fim comum, especialmente sociedade ou grémio literário.

Quando um casal meu amigo me convidou para almoçar porque queriam falar comigo sobre um assunto importante, não fazia ideia de qual seria o tema da conversa. Durante o almoço foi crescendo a minha curiosidade que, finalmente, foi saciada na hora dos cafés. Tinham um espaço nobre da casa que queriam preencher com uma obra minha. Deixavam ao meu critério todos os pormenores: cor, técnica, estilo, tamanho... Aceitavam qualquer sugestão porque confiavam em mim... Se não fossem meus amigos, a partir desse momento ficaria a considerá-los como tal: depositar no meu critério o preenchimento dum espaço do seu lar, com que iriam conviver para o resto da sua vida, mais do que uma prova de amizade, é uma prova de amor...
Poucas pessoas, os dedos de uma mão chegam para as contar, têm uma obra oferecida por mim, se descontar aquelas que ofereço para serem leiloadas para instituições de solidariedade.
Fiquei marcado pelas lágrimas de uma aluna minha que ofereceu uma das suas obras a um familiar, e foi surpreendida por a ter encontrado escondida na gaveta dum armário, na despensa. Não sei que maior ofensa se pode fazer ao trabalho de alguém, independentemente do seu valor artístico! Agora, aconselho os meus alunos a fazerem como eu: para desfazer dúvidas sobre o interesse de alguém sobre uma obra, peço um montante por ela, nem que seja simbólico. A reacção é sempre esclarecedora... Em qualquer altura, encontraremos a oportunidade de devolver a quantia recebida sem o amigo notar: no aniversário, no Natal... que pode ser quando quisermos.
Coloquei uma condição: teriam de me convidar para ir a sua casa, tomar um café e uma bebida. Claro que foi aceite: nem sequer era uma condição, era um prazer – disseram.
Passei parte do tempo num convívio do qual não tirei muito partido porque volta não volta, estava a pensar na principal motivação dessa minha visita. Registava mentalmente a cor da parede com luz, sem luz, na sombra, tomava nota do tom da mobília, das peças que envolviam toda a enorme sala comum, com a confortável lareira, e as portadas envidraçadas por onde jorrava a luz... Ah! Falta dizer que o local onde a peça seria colocada era na parede fronteira à mesa, no espaço da sala de jantar.
Quando a tela ficou completa combinámos a entrega da obra, com a sua instalação no local onde iria morar. Pedi aos meus amigos que fossem brincar com o seu belo cão para o jardim enquanto eu colocava o díptico. Podem imaginar (se calhar não podem!) a minha angústia expectante quando eles se voltaram para ver pela primeira vez a obra no local escolhido. Eu fiquei em êxtase com a sua reacção, talvez por contágio...
A Beleza reside no mundo das ideias e o Belo é identificado com a perfeição, com a verdade. A partir da beleza emanada por uma obra podemos chegar à beleza superior do Homem.
Uma vez por outra, é bom esquecer imperfeições...

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Lisboa, menina e moça

SÉRIE - AS CIDADES DAS EMOÇÕES


Igreja de Santo Estêvão
Acrílico sobre tela 70X70cm

Igreja de Santo Estevão (1702-1750)
Alfama, é um dos bairros antigos de Lisboa, com a sua fascinante paisagem de vielas estreitas e sinuosas, com restaurantes e bares na moda, mas também, com as tradicionais tabernas, onde todas as noites se canta a canção nacional, o fado, acompanhado pelo som das guitarras.
A igreja, Monumento Nacional, característico do barroco, tem um perfil irregular, só com uma torre. A fachada é dividida em três panos por pilastras e rematada por um frontão triangular, encimado por uma cruz. No seu interior oitavado de geometria simples e traçado rectangular com os ângulos cortados, destaque para o retábulo, os altares laterais, a estatuária e os azulejos.
Utilizei uma tela quadrada que torna o conjunto mais estável, sem tensões. A divisão clara entre o céu, o rio e o bairro de Alfama, com uma crescente concessão mais generosa do espaço, puxa o olhar do observador, para baixo. Contrariei essa tendência, acentuando a intensidade da cor azul nas margens, para manter o olhar junto ao ponto fulcral da obra, a Igreja, que ao contrário das regras, está colocada no lado esquerdo da tela.
Estas três divisões (céu, rio, casas) foram acentuadas com a texturização da tela. Com uma espátula (cartão de crédito:) fiz a distribuição de quantidades generosas de Modeling Paste, sem a preocupação de definir muito bem as zonas. No céu a espátula girou em todas as direcções (céu para todos), na água na horizontal (descanso absoluto), e no casario no sentido vertical (as casas, como as árvores, morrem de pé). Não tive qualquer preocupação de que as marcas deixadas pela espátula tivessem obrigatoriamente de estar em consonância com uma parede, janela ou qualquer sítio especial, até porque não fiz qualquer desenho prévio. Como é óbvio, dediquei especial atenção à igreja. No casario, mais do que definir pormenores, procurei as tonalidades gerais de cada zona. A tela foi pintada com acrílico, para manter a espontaneidade que uma pintura a la prima deve revelar.
Esta, foi a última pintura que fiz.
Está aqui para ser vista pelos amigos que me visitam. Espero de todo o coração, que gostem tanto dela como eu... com ou sem milagre do Santo Estêvão...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

SAGITÁRIO


Sagitário Óleo sobre tela 100X100cm
Durante anos, fui surpreendido por uma amiga, profundamente estudiosa destes assuntos da astrologia, que era capaz de prever as situações mais inesperadas sobre a vida das pessoas. Esse facto afectou-a de tal maneira, que deixou de fazer horóscopos das pessoas amigas, para evitar problemas de consciência com o “conhecimento” que tinha de que algo de mal iria acontecer, sem as poder avisar dessa circunstância. A mim, avisou-me que iria abandonar a minha carreira no Marketing e que, a partir dessa data, começariam a aparecer-me nas mãos e cara, manchas de diversas cores...
Quer acreditemos ou não, todos nós já deitámos os olhos a um jornal ou a uma revista, para ler o que dizem os astros sobre esta ou aquela situação.
Quando decidi passar para a tela todos os signos do Zodíaco, comecei a investigar os elementos que deviam compor cada uma das obras.
Como é natural comecei pelo meu.
Então, fiquei a saber que Sagitário é o 9.º signo do Zodíaco, associado à constelação de Sagittarius e que é ilustrado com a figura do arqueiro Quiron, um centauro, metade homem, metade cavalo, como todos os centauros que se prezam. O seu elemento é o fogo, o planeta regente Júpiter, perfumes canela e rosa, a pedra da sorte ametista (eu acho que devia ser o diamante), o metal é o estanho (parvo, era melhor platina), a cor púrpura...
Caracterizado por um amor à verdade, é muitas vezes inconveniente. Gosta de arriscar, de descobrir novos horizontes e viajar. Procura um significado mais profundo para se transcender da natureza humana para o divino, que pode resultar em intolerância para as pessoas vulgares. Quer sempre ultrapassar os limites com um optimismo inabalável.
Fui ver qual a companhia que tinha entre os Sagitários ilustres: Leonardo da Vinci, Beethoven, Oscar Niemeyer, Steven Spielberg, Manuel de Falla, compositor espanhol (Espanha é regida pelo signo do Sagitário), autor da “Dança Ritual do Fogo”... Nada mau...
Gostei muito da parte que diz que ninguém sentirá tédio na companhia de um Sagitário, que pode falar de filosofia, ou religião e ser capaz de tudo (não sabia!) para satisfazer a mulher que ama.
Para a realização da obra, socorri-me da tensão e energia da música de Beethoven, que dá uma fogosidade transcendente à sua música em que o tom e a cor são azul-púrpura profundo, com o propósito de desenvolver a consciência cósmica (seja lá isso o que for) do músico, de quem escreveu estes palavrões e, já agora, do pintor. Coloquei uma série de símbolos cabalísticos que têm a ver com o tema. Já procurei nos meus apontamentos, mas não os consegui encontrar: alguns deles já não sei o que significam, por isso, não me façam perguntas difíceis...
Como disse Jorge, esta tela está no primeiro museu Tapadinhas, de que é curadora residente a minha filha Elsa...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

MEMORIES


Memories - Óleo e acrílico sobre tela
Colagem sobre tela 80X90cm

Quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo sobre as pinturas que apresento, sabe que eu ando normalmente com um pequeno bloco, onde vou tomando notas de pequenos pormenores de paisagens e cores mais invulgares que vão surgindo.
Muitas vezes ao chegar ao estúdio, com a ajuda das notas tomadas, dou umas pinceladas em recortes de tela, para reproduzir, enquanto estão frescas na minha memória, as cores e as formas que me chamaram a atenção.
Esses pedaços de tela também servem para fazer experiências com cores e texturas, ou para tirar dúvidas sobre a correcção de opções que vou tomando, à medida que a obra avança.
Um dia, ao olhar para esses recortes, ocorreu-me a ideia de os juntar: isolados não têm valor, em conjunto talvez ganhem uma nova força, pensei.
O primeiro conjunto que fiz, que um casal amigo ostenta orgulhosamente em sua casa, o elemento dominante é a água de fontes, de rios, de mares, ou do oceano...
Um outro está repleto de flores campestres, de jardins, em vasos ou em jarras... Este tem pormenores da Biblioteca da Moita, as escadas do Convento da Arrábida, uma rua de Lisboa, aspectos da ria de Aveiro, casas, portas, janelas e azulejos de diversos locais, luzes de cidades... A obra está em casa da minha filha Elsa...
Se olhar com atenção, poderá descobrir que aquele azulejo está na rua onde mora ou, melhor ainda, na sua casa...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

SÉRIE VILAS HISTÓRICAS - MOITA


Moita - Frente ribeirinha (díptico)
Óleo sobre tela 2 x 80x100cm





Aproveitar a maré

No passado mês de Novembro saiu na publicação da Câmara Municipal d a Moita, MARÉ CHEIA, uma entrevista, onde para além de uma resenha biográfica, me perguntam qual o espectáculo que eu queria destacar entre a programação do mês.
Esse contacto recordou-me o trabalho que o Município me adquiriu, representando a frente ribeirinha da Moita.
A caldeira da Moita tem um cais construído no século XVIII, de onde saiam as antigas embarcações que carregavam e descarregavam mercadorias e passageiros, para Lisboa, atravessando o estuário do Tejo. Pela sua riqueza de recursos e localização geográfica, este local, em que ainda são visíveis os restos de antigas salinas, está na rota das migrações das aves aquáticas, constituindo uma das mais importantes zonas húmidas da Europa. As colónias de flamingos são os exemplares mais emblemáticos destas aves.
Os cuidados crescentes para evitar a contaminação da água, tornaram possível, em pouco tempo, recuperar a população de vermes utilizados pelos pescadores: minhoca, ganso e casulo. Quem não tem uma garateia (ninguém tem:), o instrumento capaz de tirar minhocas do lodo, só na baixa-mar pode apanhar os vermes de que necessita para a pesca. Uma hora antes do pico da maré e até uma hora depois, pode ver-se na caldeira, homens com pequenas pás para cavar o lodo e baldes para guardar o isco apanhado, numa grande azáfama, natural em quem sabe que os ciclos das marés são imutáveis.
Ciente destas limitações, tive de planear cuidadosamente esta obra.. Servi-me dos boletins meteorológicos para ter a certeza que as condições climatéricas não se alteravam dramaticamente durante a sua execução e, podem crer, que durante o período em apreço, não houve falhas. Outro pormenor importante foi a carta das marés, para saber as horas da baixa-mar e já estar preparado com o equipamento para retratar os pescadores, na apanha do isco para a pesca. Como o ponto de observação era na outra margem do rio, podia lá ficar calmamente sem a distracção que a natural curiosidade das pessoas provoca a quem se quer concentrar no seu trabalho, para o qual dispõe de pouco tempo útil. A partir da segunda ou terceira sessão, alguns dos pescadores já sabiam o que eu estava a fazer e pude contar com a sua colaboração como modelos...
No lado esquerdo da tela está a Escola Básica 2.º e 3.º Ciclos Fragata do Tejo, conhecida por Benetton, por causa das suas cores garridas, onde a minha filha mais velha, Dulce, deu aulas. No lado direito, junto aos plátanos, estão as instalações do Centro Náutico Moitense, onde eu passo muitas horas com alguns bons amigos, não a fazer vela ou remo, como seria de esperar, mas a jogar xadrez... Na segunda parte do díptico, na extrema direita (não em termos políticos:), está o edifício da Câmara Municipal. Por detrás e a cortar a linha do horizonte, surgem as copas de uns eucaliptos. A vivenda onde moro, está implantada num terreno adjacente, limitado por ciprestes. Com estas indicações, julgo ser fácil a qualquer amigo encontrar-me.
Espero por vós!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

SÉRIE VILAS HISTÓRICAS - ÓBIDOS


Óbidos - Muralhas Óleo sobre tela 60x100cm

Esta obra foi a prenda de casamento que eu referi na primeira entrada de Vilas Históricas.
Não a apresentei na sequência, como tinha planeado, porque quis aproveitar a descrição tão fiel, poética e palpitante de vida, da minha amiga Irene.
Para mim, na execução de qualquer paisagem, o procedimento ideal, é ir para o local armado de cavalete, tintas e restante equipamento. Numa paisagem urbana, é quase sempre impraticável. Na falta do equipamento pesado utilizo a fisga: a máquina fotográfica e um pequeno bloco de folhas brancas. Agora com as máquinas digitais é uma brincadeira tirar fotografias. Não estamos condicionados aos rolos, nem preocupados com a fortuna que vamos gastar em passá-las para papel, nem com o tempo que o laboratório leva a fazer o trabalho...
Então, para que serve o bloco de notas? A minha experiência diz-me que as fotografias deixam dúvidas sobre pequenos pormenores, que podemos querer ou não mostrar no quadro, tais como, números, palavras, símbolos ou cores. Às vezes está em primeiro plano um elemento que queremos eliminar porque o que está oculto é mais importante: não devemos ficar presos às nossas capacidades miméticas. Nessas ocasiões, é indispensável o caderno de esboços, para traçar algum pormenor que quero destacar, ou descrever a cor que estou a ver, ou seja, as cores que, combinadas, dão como resultado a cor daquele momento. Porque a luz do sol é muito traiçoeira: muda as cores e as sombras, de instante para instante. Para indicação futura, deixo sempre no papel bem marcada a direcção da luz.
No estúdio, depois de seleccionar a fotografia que vai servir de base ao quadro que vou executar, escolho o elemento central, donde irá irradiar todo o conjunto. Em qualquer das obras há um elemento comum colocado na Secção de Ouro, ou Divina Proporção, como lhe chamou Leonardo da Vinci, no seu Tratado de Pintura: um cipreste. Não desloquei a árvore :) mas “plantei-a” no sítio que me interessava para guiar o olhar do espectador. Dediquei muita atenção a essa árvore: posso garantir que tem todas as cores utilizadas na peça, para dar harmonia ao conjunto. Os telhados, não só pela sua distribuição no espaço, mas também pela infinidade de cores que os compõem, são outro elemento muito importante nestas obras. Não parece, mas está lá uma infinidade de tons, para as telhas pintadas vibrarem como se tivessem o sol a inundá-las de luz.
Depois de ter toda a tela coberta de cor, preciso de voltar ao mesmo sítio, de preferência com o cavalete, tela e todo o restante material. Estar com o cavalete montado a corrigir os erros que se detectam in loco, a tirar as dúvidas de que fui tomando nota na execução da obra, a vê-la crescer à medida que vou dando as pinceladas definitivas, é um prazer indescritível. Em determinados locais não é possível. O caderno de esboços é, mais uma vez a solução do problema. Vejo e revejo todas as dúvidas apontadas, até ter a certeza que está claro no meu espírito, a resposta para cada uma delas. Regresso rápido ao estúdio, para pintar, de olhos fechados, aquilo que, mal ou bem, gravei na minha memória, como um tesouro precioso.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

SÉRIE VILAS HISTÓRICAS - ÓBIDOS


Óbidos - Igreja Óleo sobre tela 80x100cm

Querido Antonio, entro en tu casa y me encuentro con Óbidos y tengo la sensación de que en lugar de abrir mi portátil, he abierto una ventana. Qué espléndido se ve bañado en luz y abrazado por las murallas del castillo. Debe ser como hoy, una mañana de domingo, de un invierno que ya se va despidiendo. Sus calles huelen a leña y a pan recién hecho. Pronto sonarán las campanas de la Iglesia llamando a misa de doce. Hoy no madruga nadie, es día de descanso. Los niños saldrán a jugar a la calle y los novios a pasear por esa vereda que rodea la ciudadela hasta llegar al castillo. Y los más mayores irán a la plaza del pueblo para aprovechar los rayos de un sol invernal purísimo y allí, sentarse a evocar otros tiempos, adormecidos por el rumor del agua de la fuente.
Ya no podré olvidar Óbidos.

Palavras da minha amiga Irene (http://fernandasedano.blogspot.com), na entrada anterior.
Quem sabe descrever tão bem o local é porque já lá esteve. Se não agora, noutra altura qualquer... talvez como uma das rainhas que por lá passou.
Um grande beijo, querida amiga.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

SÉRIE - VILAS HISTÓRICAS


Óbidos Óleo sobre tela 90x120cm

A HISTORIA DE ÓBIDOS
Gosto de passear num centro comercial. Quase o faço sem pensar. Durante muitos anos, por motivos profissionais, passava algumas horas por semana, nestes locais, para verificar in loco os meus produtos e analisar as actividades da concorrência. Nos primeiros tempos depois de reformado (para não dizer ainda hoje), era incapaz de comprar qualquer coisa como uma pessoa normal. Volta não volta, dava por mim a fazer esse trabalho por puro prazer: comparar preços, tomar notas de promoções ou de lançamentos da concorrência, corrigir posições nas prateleiras, escolher locais estratégicos para determinados produtos. Era tão absorvente que só via televisão para verificar se na altura dos anúncios, os meus produtos entravam na sequência certa.
Foi num grande centro comercial de Lisboa que aconteceu o que passo a relatar.
A galeria de pintura era um sítio obrigatório de passagem. Nesse dia, estava em grande destaque um “Cristo” de Bual (1926-1999). Foi um pintor pioneiro da pintura gestual em Portugal, entre a abstracção e a figuração, uma pintura de expressão directa, convulsiva e caótica, que sintetizava as contradições do homem contemporâneo. Já depois da sua morte (não é sempre assim?), a cidade da Amadora, prestou homenagem ao pintor com uma exposição de vinte e seis Cristos...
Quando entrei, só estava na galeria o seu dono. Começámos a conversar e, palavra puxa palavra, acabei por dizer-lhe que eu também era pintor. Perante a sua curiosidade, mostrei-lhe fotografias de algumas pinturas. O galerista mostrou-se interessado em expor uma obra minha na sua galeria. A escolha recaiu sobre “Óbidos” , nome de uma vila cuja origem remonta ao século I, tendo sido conquistada aos mouros em 1148 e, a partir daí, local escolhido para descanso ou refúgio de reis e rainhas, que foram deixando marcas, que se mantêm até aos nossos dias. Combinados os pormenores, no dia seguinte, entreguei-lhe a obra.
Fui passando pela galeria e um dia o meu coração disparou como um cavalo de corrida: na montra em grande destaque já não estava o Bual estava o Tapadinhas. Fiquei por ali, como uma alma penada, a esconder-me atrás de colunas, para não ser visto pelo dono ou as empregadas da galeria, a tentar ouvir os comentários das pessoas que paravam em frente da montra.
Passados poucos dias, telefonaram-me a dizer que a obra tinha sido vendida e a convidar-me para passar por lá, a fim de receber o montante combinado. Logo que me foi possível, assim fiz. Exultante, entrei na galeria e o dono, discretamente, fez-me sinal para ficar calado. Estava a falar com um cavalheiro, vestido impecavelmente, com uma bengala de castão de prata, estando na sua proximidade um calmeirão bem trajado, mas com músculos a mais para o fato e gravata lhe assentar decentemente. Ouvi o senhor dizer para o dono da galeria, que estava a desembrulhar o “Cristo”:
- Meu caro, não me surpreende que esteja maravilhoso! Tem de estar, atendendo ao que paguei... Quero é ver a outra peça: Óbidos...
Fiquei sem respiração. O dono da galeria, retirou o papel que embrulhava a obra e procurou um ângulo favorável, para poder ser apreciada. A peça tinha uma moldura de que eu pessoalmente não gostava, mas que lhe dava uma imponência e grandeza, de acordo com as vetustas pedras do castelo. Ouvi umas exclamações de prazer e umas palavras que não reproduzo, mas que foram muito agradáveis de ouvir...
Cerca de duas semanas depois da cena que acabo de descrever, recebi uma chamada do dono da galeria a pedir-me o favor de fazer outra tela sobre Óbidos, para o mesmo senhor, que a queria oferecer à filha, como prenda de casamento. Ocorreu-me de imediato, a disparidade entre o preço da minha obra e o do Cristo de Bual. Acedi, a satisfazer a encomenda mas dupliquei o valor que queria pela nova pintura. A aceitação imediata do galerista, deixou-me a certeza de continuar a ser uma pechincha...