sábado, 1 de março de 2008

ONDE A TERRA ACABA...


Onde a terra acaba e o mar começa...
Acrílico e óleo sobre tela colado sobre tela 70x80cm

Estava à procura de um tema para a postagem, quando me apareceu a foto de uma tela, feita de pormenores que fui seleccionando de experiências para obras futuras. Curiosamente, esta obra relaciona-se com a anterior: foi comprada numa exposição. Só mais tarde, fiquei a saber que tinham sido os meus amigos, quando me telefonaram a dizer (são uns brincalhões!) que se a quisesse voltar a ver, passasse lá por casa.
Desde então, tenho-me servido do pretexto de rever as obras para apreciar o belo Moscatel J. M. Fonseca que têm na sua garrafeira. E, para ser sincero, rever esta obra que está na parede defronte da lareira... para não voltar a falar de "Cenáculo"...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

CENÁCULO


Cenáculo Acrílico sobre tela Díptico 2x60x100cm


Cenáculo Peça 1


Cenáculo Peça 2

Cenáculo, nome dado à sala, à reunião, em que Jesus Cristo celebrou a ceia. Por ext.
Reunião qualquer de pessoas unidas para um fim comum, especialmente sociedade ou grémio literário.

Quando um casal meu amigo me convidou para almoçar porque queriam falar comigo sobre um assunto importante, não fazia ideia de qual seria o tema da conversa. Durante o almoço foi crescendo a minha curiosidade que, finalmente, foi saciada na hora dos cafés. Tinham um espaço nobre da casa que queriam preencher com uma obra minha. Deixavam ao meu critério todos os pormenores: cor, técnica, estilo, tamanho... Aceitavam qualquer sugestão porque confiavam em mim... Se não fossem meus amigos, a partir desse momento ficaria a considerá-los como tal: depositar no meu critério o preenchimento dum espaço do seu lar, com que iriam conviver para o resto da sua vida, mais do que uma prova de amizade, é uma prova de amor...
Poucas pessoas, os dedos de uma mão chegam para as contar, têm uma obra oferecida por mim, se descontar aquelas que ofereço para serem leiloadas para instituições de solidariedade.
Fiquei marcado pelas lágrimas de uma aluna minha que ofereceu uma das suas obras a um familiar, e foi surpreendida por a ter encontrado escondida na gaveta dum armário, na despensa. Não sei que maior ofensa se pode fazer ao trabalho de alguém, independentemente do seu valor artístico! Agora, aconselho os meus alunos a fazerem como eu: para desfazer dúvidas sobre o interesse de alguém sobre uma obra, peço um montante por ela, nem que seja simbólico. A reacção é sempre esclarecedora... Em qualquer altura, encontraremos a oportunidade de devolver a quantia recebida sem o amigo notar: no aniversário, no Natal... que pode ser quando quisermos.
Coloquei uma condição: teriam de me convidar para ir a sua casa, tomar um café e uma bebida. Claro que foi aceite: nem sequer era uma condição, era um prazer – disseram.
Passei parte do tempo num convívio do qual não tirei muito partido porque volta não volta, estava a pensar na principal motivação dessa minha visita. Registava mentalmente a cor da parede com luz, sem luz, na sombra, tomava nota do tom da mobília, das peças que envolviam toda a enorme sala comum, com a confortável lareira, e as portadas envidraçadas por onde jorrava a luz... Ah! Falta dizer que o local onde a peça seria colocada era na parede fronteira à mesa, no espaço da sala de jantar.
Quando a tela ficou completa combinámos a entrega da obra, com a sua instalação no local onde iria morar. Pedi aos meus amigos que fossem brincar com o seu belo cão para o jardim enquanto eu colocava o díptico. Podem imaginar (se calhar não podem!) a minha angústia expectante quando eles se voltaram para ver pela primeira vez a obra no local escolhido. Eu fiquei em êxtase com a sua reacção, talvez por contágio...
A Beleza reside no mundo das ideias e o Belo é identificado com a perfeição, com a verdade. A partir da beleza emanada por uma obra podemos chegar à beleza superior do Homem.
Uma vez por outra, é bom esquecer imperfeições...

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Lisboa, menina e moça

SÉRIE - AS CIDADES DAS EMOÇÕES


Igreja de Santo Estêvão
Acrílico sobre tela 70X70cm

Igreja de Santo Estevão (1702-1750)
Alfama, é um dos bairros antigos de Lisboa, com a sua fascinante paisagem de vielas estreitas e sinuosas, com restaurantes e bares na moda, mas também, com as tradicionais tabernas, onde todas as noites se canta a canção nacional, o fado, acompanhado pelo som das guitarras.
A igreja, Monumento Nacional, característico do barroco, tem um perfil irregular, só com uma torre. A fachada é dividida em três panos por pilastras e rematada por um frontão triangular, encimado por uma cruz. No seu interior oitavado de geometria simples e traçado rectangular com os ângulos cortados, destaque para o retábulo, os altares laterais, a estatuária e os azulejos.
Utilizei uma tela quadrada que torna o conjunto mais estável, sem tensões. A divisão clara entre o céu, o rio e o bairro de Alfama, com uma crescente concessão mais generosa do espaço, puxa o olhar do observador, para baixo. Contrariei essa tendência, acentuando a intensidade da cor azul nas margens, para manter o olhar junto ao ponto fulcral da obra, a Igreja, que ao contrário das regras, está colocada no lado esquerdo da tela.
Estas três divisões (céu, rio, casas) foram acentuadas com a texturização da tela. Com uma espátula (cartão de crédito:) fiz a distribuição de quantidades generosas de Modeling Paste, sem a preocupação de definir muito bem as zonas. No céu a espátula girou em todas as direcções (céu para todos), na água na horizontal (descanso absoluto), e no casario no sentido vertical (as casas, como as árvores, morrem de pé). Não tive qualquer preocupação de que as marcas deixadas pela espátula tivessem obrigatoriamente de estar em consonância com uma parede, janela ou qualquer sítio especial, até porque não fiz qualquer desenho prévio. Como é óbvio, dediquei especial atenção à igreja. No casario, mais do que definir pormenores, procurei as tonalidades gerais de cada zona. A tela foi pintada com acrílico, para manter a espontaneidade que uma pintura a la prima deve revelar.
Esta, foi a última pintura que fiz.
Está aqui para ser vista pelos amigos que me visitam. Espero de todo o coração, que gostem tanto dela como eu... com ou sem milagre do Santo Estêvão...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

SAGITÁRIO


Sagitário Óleo sobre tela 100X100cm
Durante anos, fui surpreendido por uma amiga, profundamente estudiosa destes assuntos da astrologia, que era capaz de prever as situações mais inesperadas sobre a vida das pessoas. Esse facto afectou-a de tal maneira, que deixou de fazer horóscopos das pessoas amigas, para evitar problemas de consciência com o “conhecimento” que tinha de que algo de mal iria acontecer, sem as poder avisar dessa circunstância. A mim, avisou-me que iria abandonar a minha carreira no Marketing e que, a partir dessa data, começariam a aparecer-me nas mãos e cara, manchas de diversas cores...
Quer acreditemos ou não, todos nós já deitámos os olhos a um jornal ou a uma revista, para ler o que dizem os astros sobre esta ou aquela situação.
Quando decidi passar para a tela todos os signos do Zodíaco, comecei a investigar os elementos que deviam compor cada uma das obras.
Como é natural comecei pelo meu.
Então, fiquei a saber que Sagitário é o 9.º signo do Zodíaco, associado à constelação de Sagittarius e que é ilustrado com a figura do arqueiro Quiron, um centauro, metade homem, metade cavalo, como todos os centauros que se prezam. O seu elemento é o fogo, o planeta regente Júpiter, perfumes canela e rosa, a pedra da sorte ametista (eu acho que devia ser o diamante), o metal é o estanho (parvo, era melhor platina), a cor púrpura...
Caracterizado por um amor à verdade, é muitas vezes inconveniente. Gosta de arriscar, de descobrir novos horizontes e viajar. Procura um significado mais profundo para se transcender da natureza humana para o divino, que pode resultar em intolerância para as pessoas vulgares. Quer sempre ultrapassar os limites com um optimismo inabalável.
Fui ver qual a companhia que tinha entre os Sagitários ilustres: Leonardo da Vinci, Beethoven, Oscar Niemeyer, Steven Spielberg, Manuel de Falla, compositor espanhol (Espanha é regida pelo signo do Sagitário), autor da “Dança Ritual do Fogo”... Nada mau...
Gostei muito da parte que diz que ninguém sentirá tédio na companhia de um Sagitário, que pode falar de filosofia, ou religião e ser capaz de tudo (não sabia!) para satisfazer a mulher que ama.
Para a realização da obra, socorri-me da tensão e energia da música de Beethoven, que dá uma fogosidade transcendente à sua música em que o tom e a cor são azul-púrpura profundo, com o propósito de desenvolver a consciência cósmica (seja lá isso o que for) do músico, de quem escreveu estes palavrões e, já agora, do pintor. Coloquei uma série de símbolos cabalísticos que têm a ver com o tema. Já procurei nos meus apontamentos, mas não os consegui encontrar: alguns deles já não sei o que significam, por isso, não me façam perguntas difíceis...
Como disse Jorge, esta tela está no primeiro museu Tapadinhas, de que é curadora residente a minha filha Elsa...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

MEMORIES


Memories - Óleo e acrílico sobre tela
Colagem sobre tela 80X90cm

Quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo sobre as pinturas que apresento, sabe que eu ando normalmente com um pequeno bloco, onde vou tomando notas de pequenos pormenores de paisagens e cores mais invulgares que vão surgindo.
Muitas vezes ao chegar ao estúdio, com a ajuda das notas tomadas, dou umas pinceladas em recortes de tela, para reproduzir, enquanto estão frescas na minha memória, as cores e as formas que me chamaram a atenção.
Esses pedaços de tela também servem para fazer experiências com cores e texturas, ou para tirar dúvidas sobre a correcção de opções que vou tomando, à medida que a obra avança.
Um dia, ao olhar para esses recortes, ocorreu-me a ideia de os juntar: isolados não têm valor, em conjunto talvez ganhem uma nova força, pensei.
O primeiro conjunto que fiz, que um casal amigo ostenta orgulhosamente em sua casa, o elemento dominante é a água de fontes, de rios, de mares, ou do oceano...
Um outro está repleto de flores campestres, de jardins, em vasos ou em jarras... Este tem pormenores da Biblioteca da Moita, as escadas do Convento da Arrábida, uma rua de Lisboa, aspectos da ria de Aveiro, casas, portas, janelas e azulejos de diversos locais, luzes de cidades... A obra está em casa da minha filha Elsa...
Se olhar com atenção, poderá descobrir que aquele azulejo está na rua onde mora ou, melhor ainda, na sua casa...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

SÉRIE VILAS HISTÓRICAS - MOITA


Moita - Frente ribeirinha (díptico)
Óleo sobre tela 2 x 80x100cm





Aproveitar a maré

No passado mês de Novembro saiu na publicação da Câmara Municipal d a Moita, MARÉ CHEIA, uma entrevista, onde para além de uma resenha biográfica, me perguntam qual o espectáculo que eu queria destacar entre a programação do mês.
Esse contacto recordou-me o trabalho que o Município me adquiriu, representando a frente ribeirinha da Moita.
A caldeira da Moita tem um cais construído no século XVIII, de onde saiam as antigas embarcações que carregavam e descarregavam mercadorias e passageiros, para Lisboa, atravessando o estuário do Tejo. Pela sua riqueza de recursos e localização geográfica, este local, em que ainda são visíveis os restos de antigas salinas, está na rota das migrações das aves aquáticas, constituindo uma das mais importantes zonas húmidas da Europa. As colónias de flamingos são os exemplares mais emblemáticos destas aves.
Os cuidados crescentes para evitar a contaminação da água, tornaram possível, em pouco tempo, recuperar a população de vermes utilizados pelos pescadores: minhoca, ganso e casulo. Quem não tem uma garateia (ninguém tem:), o instrumento capaz de tirar minhocas do lodo, só na baixa-mar pode apanhar os vermes de que necessita para a pesca. Uma hora antes do pico da maré e até uma hora depois, pode ver-se na caldeira, homens com pequenas pás para cavar o lodo e baldes para guardar o isco apanhado, numa grande azáfama, natural em quem sabe que os ciclos das marés são imutáveis.
Ciente destas limitações, tive de planear cuidadosamente esta obra.. Servi-me dos boletins meteorológicos para ter a certeza que as condições climatéricas não se alteravam dramaticamente durante a sua execução e, podem crer, que durante o período em apreço, não houve falhas. Outro pormenor importante foi a carta das marés, para saber as horas da baixa-mar e já estar preparado com o equipamento para retratar os pescadores, na apanha do isco para a pesca. Como o ponto de observação era na outra margem do rio, podia lá ficar calmamente sem a distracção que a natural curiosidade das pessoas provoca a quem se quer concentrar no seu trabalho, para o qual dispõe de pouco tempo útil. A partir da segunda ou terceira sessão, alguns dos pescadores já sabiam o que eu estava a fazer e pude contar com a sua colaboração como modelos...
No lado esquerdo da tela está a Escola Básica 2.º e 3.º Ciclos Fragata do Tejo, conhecida por Benetton, por causa das suas cores garridas, onde a minha filha mais velha, Dulce, deu aulas. No lado direito, junto aos plátanos, estão as instalações do Centro Náutico Moitense, onde eu passo muitas horas com alguns bons amigos, não a fazer vela ou remo, como seria de esperar, mas a jogar xadrez... Na segunda parte do díptico, na extrema direita (não em termos políticos:), está o edifício da Câmara Municipal. Por detrás e a cortar a linha do horizonte, surgem as copas de uns eucaliptos. A vivenda onde moro, está implantada num terreno adjacente, limitado por ciprestes. Com estas indicações, julgo ser fácil a qualquer amigo encontrar-me.
Espero por vós!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

SÉRIE VILAS HISTÓRICAS - ÓBIDOS


Óbidos - Muralhas Óleo sobre tela 60x100cm

Esta obra foi a prenda de casamento que eu referi na primeira entrada de Vilas Históricas.
Não a apresentei na sequência, como tinha planeado, porque quis aproveitar a descrição tão fiel, poética e palpitante de vida, da minha amiga Irene.
Para mim, na execução de qualquer paisagem, o procedimento ideal, é ir para o local armado de cavalete, tintas e restante equipamento. Numa paisagem urbana, é quase sempre impraticável. Na falta do equipamento pesado utilizo a fisga: a máquina fotográfica e um pequeno bloco de folhas brancas. Agora com as máquinas digitais é uma brincadeira tirar fotografias. Não estamos condicionados aos rolos, nem preocupados com a fortuna que vamos gastar em passá-las para papel, nem com o tempo que o laboratório leva a fazer o trabalho...
Então, para que serve o bloco de notas? A minha experiência diz-me que as fotografias deixam dúvidas sobre pequenos pormenores, que podemos querer ou não mostrar no quadro, tais como, números, palavras, símbolos ou cores. Às vezes está em primeiro plano um elemento que queremos eliminar porque o que está oculto é mais importante: não devemos ficar presos às nossas capacidades miméticas. Nessas ocasiões, é indispensável o caderno de esboços, para traçar algum pormenor que quero destacar, ou descrever a cor que estou a ver, ou seja, as cores que, combinadas, dão como resultado a cor daquele momento. Porque a luz do sol é muito traiçoeira: muda as cores e as sombras, de instante para instante. Para indicação futura, deixo sempre no papel bem marcada a direcção da luz.
No estúdio, depois de seleccionar a fotografia que vai servir de base ao quadro que vou executar, escolho o elemento central, donde irá irradiar todo o conjunto. Em qualquer das obras há um elemento comum colocado na Secção de Ouro, ou Divina Proporção, como lhe chamou Leonardo da Vinci, no seu Tratado de Pintura: um cipreste. Não desloquei a árvore :) mas “plantei-a” no sítio que me interessava para guiar o olhar do espectador. Dediquei muita atenção a essa árvore: posso garantir que tem todas as cores utilizadas na peça, para dar harmonia ao conjunto. Os telhados, não só pela sua distribuição no espaço, mas também pela infinidade de cores que os compõem, são outro elemento muito importante nestas obras. Não parece, mas está lá uma infinidade de tons, para as telhas pintadas vibrarem como se tivessem o sol a inundá-las de luz.
Depois de ter toda a tela coberta de cor, preciso de voltar ao mesmo sítio, de preferência com o cavalete, tela e todo o restante material. Estar com o cavalete montado a corrigir os erros que se detectam in loco, a tirar as dúvidas de que fui tomando nota na execução da obra, a vê-la crescer à medida que vou dando as pinceladas definitivas, é um prazer indescritível. Em determinados locais não é possível. O caderno de esboços é, mais uma vez a solução do problema. Vejo e revejo todas as dúvidas apontadas, até ter a certeza que está claro no meu espírito, a resposta para cada uma delas. Regresso rápido ao estúdio, para pintar, de olhos fechados, aquilo que, mal ou bem, gravei na minha memória, como um tesouro precioso.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

SÉRIE VILAS HISTÓRICAS - ÓBIDOS


Óbidos - Igreja Óleo sobre tela 80x100cm

Querido Antonio, entro en tu casa y me encuentro con Óbidos y tengo la sensación de que en lugar de abrir mi portátil, he abierto una ventana. Qué espléndido se ve bañado en luz y abrazado por las murallas del castillo. Debe ser como hoy, una mañana de domingo, de un invierno que ya se va despidiendo. Sus calles huelen a leña y a pan recién hecho. Pronto sonarán las campanas de la Iglesia llamando a misa de doce. Hoy no madruga nadie, es día de descanso. Los niños saldrán a jugar a la calle y los novios a pasear por esa vereda que rodea la ciudadela hasta llegar al castillo. Y los más mayores irán a la plaza del pueblo para aprovechar los rayos de un sol invernal purísimo y allí, sentarse a evocar otros tiempos, adormecidos por el rumor del agua de la fuente.
Ya no podré olvidar Óbidos.

Palavras da minha amiga Irene (http://fernandasedano.blogspot.com), na entrada anterior.
Quem sabe descrever tão bem o local é porque já lá esteve. Se não agora, noutra altura qualquer... talvez como uma das rainhas que por lá passou.
Um grande beijo, querida amiga.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

SÉRIE - VILAS HISTÓRICAS


Óbidos Óleo sobre tela 90x120cm

A HISTORIA DE ÓBIDOS
Gosto de passear num centro comercial. Quase o faço sem pensar. Durante muitos anos, por motivos profissionais, passava algumas horas por semana, nestes locais, para verificar in loco os meus produtos e analisar as actividades da concorrência. Nos primeiros tempos depois de reformado (para não dizer ainda hoje), era incapaz de comprar qualquer coisa como uma pessoa normal. Volta não volta, dava por mim a fazer esse trabalho por puro prazer: comparar preços, tomar notas de promoções ou de lançamentos da concorrência, corrigir posições nas prateleiras, escolher locais estratégicos para determinados produtos. Era tão absorvente que só via televisão para verificar se na altura dos anúncios, os meus produtos entravam na sequência certa.
Foi num grande centro comercial de Lisboa que aconteceu o que passo a relatar.
A galeria de pintura era um sítio obrigatório de passagem. Nesse dia, estava em grande destaque um “Cristo” de Bual (1926-1999). Foi um pintor pioneiro da pintura gestual em Portugal, entre a abstracção e a figuração, uma pintura de expressão directa, convulsiva e caótica, que sintetizava as contradições do homem contemporâneo. Já depois da sua morte (não é sempre assim?), a cidade da Amadora, prestou homenagem ao pintor com uma exposição de vinte e seis Cristos...
Quando entrei, só estava na galeria o seu dono. Começámos a conversar e, palavra puxa palavra, acabei por dizer-lhe que eu também era pintor. Perante a sua curiosidade, mostrei-lhe fotografias de algumas pinturas. O galerista mostrou-se interessado em expor uma obra minha na sua galeria. A escolha recaiu sobre “Óbidos” , nome de uma vila cuja origem remonta ao século I, tendo sido conquistada aos mouros em 1148 e, a partir daí, local escolhido para descanso ou refúgio de reis e rainhas, que foram deixando marcas, que se mantêm até aos nossos dias. Combinados os pormenores, no dia seguinte, entreguei-lhe a obra.
Fui passando pela galeria e um dia o meu coração disparou como um cavalo de corrida: na montra em grande destaque já não estava o Bual estava o Tapadinhas. Fiquei por ali, como uma alma penada, a esconder-me atrás de colunas, para não ser visto pelo dono ou as empregadas da galeria, a tentar ouvir os comentários das pessoas que paravam em frente da montra.
Passados poucos dias, telefonaram-me a dizer que a obra tinha sido vendida e a convidar-me para passar por lá, a fim de receber o montante combinado. Logo que me foi possível, assim fiz. Exultante, entrei na galeria e o dono, discretamente, fez-me sinal para ficar calado. Estava a falar com um cavalheiro, vestido impecavelmente, com uma bengala de castão de prata, estando na sua proximidade um calmeirão bem trajado, mas com músculos a mais para o fato e gravata lhe assentar decentemente. Ouvi o senhor dizer para o dono da galeria, que estava a desembrulhar o “Cristo”:
- Meu caro, não me surpreende que esteja maravilhoso! Tem de estar, atendendo ao que paguei... Quero é ver a outra peça: Óbidos...
Fiquei sem respiração. O dono da galeria, retirou o papel que embrulhava a obra e procurou um ângulo favorável, para poder ser apreciada. A peça tinha uma moldura de que eu pessoalmente não gostava, mas que lhe dava uma imponência e grandeza, de acordo com as vetustas pedras do castelo. Ouvi umas exclamações de prazer e umas palavras que não reproduzo, mas que foram muito agradáveis de ouvir...
Cerca de duas semanas depois da cena que acabo de descrever, recebi uma chamada do dono da galeria a pedir-me o favor de fazer outra tela sobre Óbidos, para o mesmo senhor, que a queria oferecer à filha, como prenda de casamento. Ocorreu-me de imediato, a disparidade entre o preço da minha obra e o do Cristo de Bual. Acedi, a satisfazer a encomenda mas dupliquei o valor que queria pela nova pintura. A aceitação imediata do galerista, deixou-me a certeza de continuar a ser uma pechincha...

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Tchaikovsky - Nutcracker,

SÉRIE ÓPERA E BAILADO


Bailado "O Quebra-nozes" (Nutcracker ).
Acrílico sobre tela 70x100cm

“Festa da alta burguesia, na qual a pequena Clara, irmã de Fritz, filhos do casal Sthalbaum, recebe do padrinho, Herr Drosselmeyer, um quebra-nozes com a forma de boneco. Durante a festa, o padrinho entretém com mágicas e danças. Terminada a festa, enquanto todos dormiam, Clara volta à sala, junto à árvore de Natal, para ver o seu presente. Ela adormece e sonha que um exército de ratos está invadindo a sala. O Quebra-nozes ataca os ratos, comandando um exército de soldadinhos de chumbo”.
Estas palavras que resumem a história deste bailado, baseado no conto “The Nutcracker and the King of Mice” escrito por E.T.A. Hoffman, com música de Tchaikovsky, estão escritas à volta da tela...
De acordo com o espírito do conto e das encenações clássicas do bailado, utilizei cores puras, de que me servi para sugerir as diversas figuras que povoam a história.
Este é sem dúvida o bailado que mais me comove, ainda hoje. Está ligado ao culminar de alguns anos de esforços, para não faltar às aulas de ballet. Há 25 anos estava sentado na 1.ª fila do teatro onde ia ter lugar uma apresentação única e inesquecível: as minhas filhas Dulce e Elsa, iam dançar o Quebra-nozes, o bailado que pela sua estética, concepção e história, se tornou um clássico tradicional da época natalícia.
Não sei se dançaram bem ou mal: uma névoa toldava-me os olhos e não me deixava ver com nitidez o que se passava no palco. Lembro-me de estar a rir às gargalhadas, porque a mais pequena, de vez em quando, começava os seus passos ligeiramente atrasada, interessadíssima que estava em qualquer pormenor do seu lindo vestido, ou a ver o que se passava nos bastidores...
Espero que gostem!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

HARÉM


Harém Óleo sobre tela 70x80cm

Hoje quero apresentar-lhes, Rocky, um macho adulto da raça Rottweiler, e as suas companheiras Bianca e Chippie, da raça Husky siberiana. Rocky é, como os seus antepassados oriundo da região de Rottweil, na Alemanha, um defensor dos seus amos e das suas propriedades, com grande disponibilidade para a brincadeira e o trabalho. As suas companheiras, são completamente diferentes no seu comportamento: Bianca, de frente para a câmara, é uma fêmea chefe de matilha, que se lhe derem uma oportunidade, desaparece, levando consigo, Chippie, que segue fielmente a sua líder.
Para esta composição, foram tiradas algumas dezenas de fotos, com os cães isolados ou interagindo. No conjunto, parece-me estar retratada a personalidade de cada um dos animais: Rocky, macho dominante, a vigiar as companheiras, Bianca, chefe de matilha, a olhar desafiadora para a câmara e Chippie, a doce...
Feitas as apresentações, quero chamar a atenção para um pormenor que penso fazer toda a diferença. A tela, apesar de bastante povoada, dá a sensação de espaço, essencial para que os elementos que interessam, os cães, respirem livremente. A grande mancha verde da relva na parte inferior do quadro, foi para o observador ficar com essa impressão. Sobre as cores e contrastes, julgo que já sabem tanto como eu...
Costuma dizer-se que os cães são o reflexo dos seu donos. Estou inteiramente de acordo, mas sobre esse assunto falarei num momento mais oportuno.
Será daqui a alguns meses...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008


Lírios de Van Gogh, 1889, pormenor
Óleo sobre tela, 71x93cm

História de uma paixão
Em fins de Abril de 1997, recebi em minha casa um convite, acompanhado de um desdobrável com fotografias de artistas como Françoise Sagan, Frank Sinatra, Sofia Loren, Roger Moore, Arnold Schwartzenegger, em frente de reproduções de grandes obras, dos maiores mestres da pintura, para assistir á inauguração da exposição do Museu Imaginário, num hotel de Lisboa.


O convite

No dia 5 de Maio de 1997, às 19:30, estava a aproximar-me da sala onde se realizava o cocktail de apresentação e, de repente, o meu cérebro, por muito que eu teimasse, recusava-se a apreender o que os meus olhos viam: Os Lírios de Van Gogh, estavam à minha frente, ao alcance de um abraço. Caí em mim: era “apenas” uma reprodução, feita por um mestre de pintura, com as tintas de que os pintores dispunham na época... Lá atrás, estava o certificado de “Falsi D´Autore”, para tirar qualquer dúvida...
Na sala, falsificações verdadeiras de Modigliani, Cézanne, Gauguin, Renoir, Corot, Manet... e de alguns pintores portugueses como Malhoa, João Vaz ou Columbano. Um verdadeiro festim...

Frente

Verso

Na altura, apesar da minha pouca experiência, como pintor, já notava umas “pequenas” diferenças... mas a concentração em tão pequeno espaço de tantas obras-primas, era suficiente para manter a euforia que sentira, ao entrar na sala dos sonhos.
Imaginem agora, o que senti quando visitei o Museu Thysen-Bornemisa em Madrid, por ocasião duma exposição temporária de impressionistas, post-impressionistas e expressionistas... em que pontificavam não sei quantos Van Gogh, a sério!


Lírios de António Tapadinhas, pormenor
Óleo sobre tela 71x93cm

Nesta minha reprodução dos Lírios, só tenho a fotografia que vos mostro, em que faltam 5 a 10cm, da parte inferior da tela. É algo que eu não posso corrigir, porque não sei quem me comprou este quadro... Não tenho registo de muitas obras dos meus primeiros tempos de pintor.
Já aconteceu, que um cidadão espanhol que me comprou meia dúzia de telas numa exposição, enquanto esperava pelo táxi no aeroporto de Barcelona, distraiu-se, e algum apreciador do alheio, roubou-lhe o embrulho que continha os quadros. Não sei se o ladrão era apreciador de arte... O mais certo, é que nalguma obscura galeria de Barcelona (atenção Jorge), estejam para venda umas paisagens da cidade de Barreiro, com a assinatura de um pintor português, conhecido na sua rua - A. Tapadinhas.
Regressando à reprodução.
As minhas cores estão mais vivas, porque sei que há cores que vão perdendo intensidade com o decorrer do tempo. Para apreciar a diferença, é ver a comparação das cores actuais, depois da sua restauração, dos frescos de Miguel Angelo, na Capela Sistina. Quando lá estive, a restauração ainda não estava concluída mas já dava para ver que a intensidade das cores tinha alterações abissais.
Mais uma vez, notar que os azuis fortes, violáceos, têm como fundo os seus complementares amarelos e laranjas, e por baixo dos diversos verdes, espreitam os tons da terra avermelhada... As cores parecem nascer do interior das próprias flores... E aquele lírio branco... é obra divina!
Aqui para nós, já utilizei algumas vezes o lírio branco, pintado em tela ou papel, para oferecer em ocasiões especiais. Por enquanto, Van Gogh ainda não protestou... e as minhas amigas também não!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

BIBLIOTECA


Biblioteca Acrílico sobre tela 50x60cm


Biblioteca
Desenho a tinta da china sobre papel Canson 21x29cm

A obra que apresento, foi feita a partir de um esboço que fiz para ilustrar uma crónica de jornal. O esboço pareceu-me demasiado abstracto para poder ser considerado uma ilustração e resolvi fazer este desenho puro e duro que foi publicado com a crónica.


Esboço com caneta Rotring isograph, sobre papel, 17x20cm

Depois da publicação da crónica e do desenho, fiquei com um esboço a tinta da china de que eu gostava tanto que considerei a hipótese de o explorar noutras dimensões e com a adição de cor.
Esta obra foi de execução aparentemente fácil. Todo o trabalho de luz e sombras estava definido no esboço. Os elementos concretos de que me ia servir para introduzir o observador na biblioteca estavam lá: os arcos da estrutura do edifício, as portas, os corredores, as escadas com os seus corrimãos, as prateleiras com os livros... Torná-la confortável era a missão que a cor teria de cumprir. Nunca ficou claro no meu espírito se devia ou não povoar a biblioteca de leitores...
Cobri toda a tela com yellow ochre e burnt umber, definindo logo as zonas mais luminosas e as mais sombrias. Naples yellow e titanium white foram as duas cores que deram mais luz a zonas pouco iluminadas ou que precisavam de contrastes mais fortes para dar vida ao conjunto. Com o burnt sienna dei o tom avermelhado quente para tornar a biblioteca confortável. A cor azul (cerulean blue hue) serve também para dar contraste ao tons quase monocromáticos utilizados, mas sobretudo para abrir janelas, por onde a luz do sol entra e se vê o céu. Indispensável numa biblioteca.


BIBLIOTECA, O PAÍS DAS MARAVILHAS

Sinto saudades, absurdas saudades, dos momentos angustiantes que antecediam a minha entrada na biblioteca.
Actualmente, entra-se e pronto.
Dantes, não era certo o direito de admissão, mesmo cumprindo todas as regras. A porteira, com os bigodes iguais aos dos actuais porteiros das discotecas, tinha o direito divino de inventar uma regra para só deixar entrar quem lhe apetecesse. Mas atenção: nunca houve tiros para forçar a porta. A nossa imaginação só chegava ao lançamento duma garrafinha de mau-cheiro, por alturas do Carnaval.
A cerimónia de recepção, era tão complicada, como o ritual de acasalamento dos papagaios. Depois de depositar o BI nas garras da seresma, ela olhava para mim, cheirava-me, via a sola dos meus sapatos, examinava as minhas mãos e unhas com o ar de um sargento de artilharia, a revistar soldados.
Nesses infindáveis momentos, nem conseguia respirar o prazer de ter pulmões. Fazia o meu sorriso mais cativante mas só com muito custo conseguia evitar que raios paralisantes saíssem dos meus olhos, directos ao coração da megera.
Um último olhar para examinar os cabelos e levantava um braço, que tinha na ponta a mão, mas donde eu via sair um martelo que me atingia a cabeça. Algumas vezes, que maravilha, tinha uma senha azul e um dedo que me apontava o cimo das escadas.
Já sabia todos os truques para aumentar as hipóteses de subir ao paraíso: para eliminar cheiros suspeitos, tinha nos bolsos bolas de naftalina, misturadas com os bugalhos e abafadores, molhava os cabelos para baixar os remoinhos, calçava botas cuidadosamente ensebadas para não rangerem, com solas de borracha para não fazer barulho.
Apesar de tudo não era certa a entrada. O Zé Mocho ficou uma vez à porta porque tinha o risco do lado errado da cabeça.
Era preciso subir o primeiro lanço de escadas com muita calma: correr, era proibido!
Chegava a uma porta envidraçada. Esperava, sem sinais exteriores de impaciência. Bater, nunca! Quando a cabeça da senhora, com o nariz pousado numa montanha de papéis, se levantava para olhar o verme que se atrevia a incomodá-la, eu levantava, lentamente, a mão para lhe mostrar a senha.
A senhora recebia o passe e ciciava: “Sssegue-me, sssem barulho.”
Em bicos de pés, num ballet estranho, tic, tic, tic, chego a uma mesa comprida cheia de pessoas mergulhadas nas ondas de perfumes de tintas e bolores, drogas alucinógenas, cujo perigo ainda não tinha sido detectado pelos guardiões do regime. Sento-me numa cadeira vaga. Preencho a ficha com o pedido do livro a que tenho direito: a senha azul limitava o acesso a obras indicadas para meninos até aos catorze anos e para meninas até aos dezoito anos. Nunca percebi porquê. Passados uns eternos instantes, a bibliotecária deixa o livro requisitado na minha frente.
A partir desse momento esqueço a humidade desta sala bafienta, mal iluminada, ou os cadáveres sentados em cadeiras, a voltarem folhas de papel cheias de carunchos esfomeados, crac, crac, crac…
Lá fora podia subir ao sol, beijar as nuvens, falar com os pardais, afagar ou chutar uma bola… Tudo passava para segundo plano.
Com a ajuda do meu amigo, il Signor Emílio Salgari, vou derrotar todos os piratas, vou descer ao fundo dos oceanos com Monsieur Júlio Verne, com Mister Mark Twain vou ganhar amigos para sempre, ou vingar-me de todas as traições com Monsieur Alexandre Dumas.
Foi numa destas salas que Einstein formulou a teoria da relatividade. Assim também eu: lá dentro o tempo voa!
É sempre com um sobressalto que oiço ao meu ouvido:
- “Faltam dezzz minutossss”.
Agora, que tinha descoberto a palavra mágica para entrar na caverna do tesouro…
Nas bibliotecas actuais sinto a falta do barulho do caruncho, acho estranho estar a ver o sol a entrar pelas grandes janelas, enquanto, conduzido por Mary Shelley, entro num castelo sombrio, com perigosos vampiros sedentos de sangue, à espera da chegada da noite para beberem tudo.
Acho excessiva a familiaridade, com que posso ir buscar à prateleira, sem uma requisição em papel selado, Saramago
- Com que então, um Nobel, pá?
digo, dando-lhe uma palmada na lombada, ou Camões
- Tás bom, ó zarolho?
para não falar do disparate que é, deixarem qualquer pessoa sair pela porta fora com o Lobo Antunes na mão. Coitado, nem nas prateleiras o deixam sossegado.
Melhor, melhor mesmo é o sorriso simpático com que sou recebido na biblioteca. Mas, mesmo assim, não sei…É demasiado fácil. Acho que falta a incerteza, a angústia de poder, ou não, entrar. Ninguém me pede uma senha!
Serei masoquista?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

FERNANDO PESSOA



Retrato de Fernando Pessoa, 1954
Pintado por Almada Negreiros, Óleo sobre tela (201x201)

Almada Negreiros quis homenagear o seu amigo com esta obra magnífica. Toda a cintilante luz que percorre o café, e faz vibrar os soberbos vermelhos que envolvem o poeta, criam um contraste com a sua indumentária negra, que permanece impassível, concentrado na busca que marcou a literatura portuguesa e a mítica Geração do Orpheu.
Por diversas vezes tenho visto blogues portugueses e estrangeiros com poemas ou citações de Fernando Pessoa, que mostram a sua universalidade. Nessas alturas lembrava o desenho, que fiz para ilustrar uma crónica de jornal:


Fernando Pessoa
Tinta da china sobre cartolina rosa, 27,5 x 27,5 Pormenor
(O meu scanner não tem largura suficiente para apanhar todo o desenho).

A minha crónica dizia:

NA MESA DO CANTO

Os cafés são recintos onde só com muita dificuldade, actualmente, duas pessoas podem conversar naturalmente, devido à poluição sonora. Em compensação, tornou-se um local privilegiado para se saber as últimas novidades da vizinhança e os palpitantes desenvolvimentos das telenovelas da vida real.
Aquele que eu frequento mais assiduamente, fica em frente a um notário e perto do quartel dos bombeiros. É lá que tomo o café adoçado com meio pacote de açúcar e mexido com uma colherada das notícias do dia.
Na maior parte dos casos a reportagem é feita pela Dona Rosa, uma senhora de meia idade, de carnes generosas e voz de soprano a frequentar as primeiras lições de canto. Entra sempre cansadíssima, porque as suas mãos transportam vinte ou trinta sacos da Cooperativa “A Vontade do Povo”, do Intermarché, do Continente, da Feira-Nova, num “frou-frou” de plásticos, mistura de proletários e capitalistas, de couves e brócolos, onde convivem carapaus e petingas, com iscas e couratos.
Não sei como é possível uma simples dona de casa do terceiro esquerdo do Bairro da Caixa, ter tantos e incríveis acontecimentos para contar a toda a gente. A televisão sempre a vomitar colcheias, daquele incrível canal que tem a mesma música durante vinte e quatro horas por dia, serve apenas para sublinhar com uma banda sonora, as aventuras e desventuras dos seus personagens, num aumento de decibéis, à medida que as histórias se desenvolvem, entrelaçadas como pétalas de rosa.
Entre os frequentadores do café contam-se um avô e seu neto, Carlitos. O seu relacionamento, pode considerar-se perfeito. Tudo o que vai para a mesa é sistematicamente recusado pelo miúdo, sem razão aparente. Tudo o que a criança escolhe é recusado pelo avô: por ter creme a mais “ficas todo sujo”, ou demasiado gás “faz doer a barriga”, ser muito doce “faz mal aos dentes”, ou ter muito sal “faz muita sede”. Como se constata, por muitas e boas razões, todas ultrapassadas com facilidade, quando o petiz se lança para o chão aos gritos, numa simulação oscarizável de um ataque epiléptico. Claro que a partir desse momento, pode comer o quiser.
Segue-se a invasão dos bombeiros que saem do seu turno. Chegam em grupos de três ou quatro envergando a farda de trabalho, o fato de macaco e pedem invariavelmente sandes e cervejas. Falam só por monossílabos, cansados e, talvez, ainda impressionados com a dureza das nobres missões cumpridas durante a noite.
Segue-se um espectáculo de som e cor: o café transforma-se num estuário onde o azul, profundo como o mar da ganga viril dos bombeiros, é invadido pelo verde das fardas de terilene das técnicas de limpeza e conservação de espaços urbanos (como diria a D. Rosa, mulheres do lixo) que, como um bando de gralhas fugidas do jardim, pousam entre as mesas, grasnando entre si, novidades para todos os presentes.
Um pouco mais tarde, começam a juntar-se os herdeiros. Reconhecem-se com facilidade: vestem de preto, têm os olhos vermelhos e embora sejam todos familiares, dividem-se em grupos, crocitando entre si, como abutres a disputar bocados de carniça.
Saio rapidamente, enquanto o bando se reúne na árvore a espiar a abertura da porta do cartório, esticando os pescoços como as mãos de arrumadores de automóveis na caça de moedas.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

CONVENTO DE JESUS - SETÚBAL


Convento de Jesus - Setúbal Óleo sobre tela (60X100)

Fui contactado por um amigo para me encontrar com um casal que me queria fazer um pedido para a execução dum trabalho. No encontro que tivemos, fiquei a conhecer o jovem e simpático par e o que pretendiam. Moravam na cidade de Setúbal, em frente do Convento de Jesus, um dos marcos do estilo manuelino, datado de 1490. Queriam ter uma tela com o monumento que fazia parte das suas vidas. Concordei quase de imediato, com a condição de colaborarem na sua execução, como modelos.
Já devem ter visto nas séries policiais, que os fotógrafos ao registar um indício encontrado no local do crime, colocam ao seu lado uma régua e, na sua falta, um objecto com uma dimensão perfeitamente definida, normalmente uma moeda, para se ficar com a noção exacta do tamanho da prova. Da mesma forma, os pintores quando consideram importante realçar a imponência do motivo, servem-se de alguns truques que os ajudam a conseguir esse objectivo.
No dia e hora combinados, montei o cavalete em frente da porta do convento e esperei pela chegada dos modelos. Tinha pedido ao elemento feminino que vestisse uma blusa vermelha, com saia ou calças escuras, e para o elemento masculino uma camisa clara e blue jeans. Cuidei desse pormenor (?) da cor das roupas para dar os contrastes, às grandes extensões quase monocromáticas do largo. Todas as figuras estrategicamente colocadas em diversos planos são os actuais donos da obra, que se prestaram, com muita paciência, a percorrer diversas vezes o espaço entre mim e o convento. O lindíssimo cruzeiro que se vê no lado esquerdo da tela, foi executado em mármore vermelho da serra da Arrábida, por ordem de D. Jorge de Lencastre. Para além da sua beleza é um elemento essencial para forçar o olhar do espectador, a voltar ao lado esquerdo da tela que é um local observado com apenas um relance de olhos, na apreciação duma pintura. Utilizei o método pontilhista, com bastante matéria, para sugerir as protuberâncias e reentrâncias que a provecta idade do monumento, aliada à maciez do mármore, propiciam, num interessante jogo de luz e sombras.
Normalmente não coloco nenhuma figura no centro e nunca tão frontal para o observador. É contra as regras. As regras são feitas para ser quebradas – é uma regra! Neste caso, foi plenamente justificado pela alegria com que se reconheceram e são reconhecidos pelos amigos a passear num sítio tão emblemático.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

MERCADO DE PINHAL NOVO


Mercado Óleo sobre tela (50x40)

O mercado que se realiza no segundo domingo de cada mês no Pinhal Novo, depois da construção da estação de caminho de ferro, tornou-se um dos maiores do país, um autêntico hipermercado ao ar livre, onde a população de toda a região compra e vende de tudo um pouco.
A partir duma fotografia histórica, datada de 1908, que mostra a zona fronteira à capela e a importância que já tinha nessa altura o mercado, fiz uma tela de grandes dimensões que se encontra na sede da Junta de Freguesia de Pinhal Novo.
Foi neste local que foi captada a imagem que serviu para a execução desta obra. Para não ferir susceptibilidades, ou levantar suspeitas sobre as minhas intenções, levei comigo o meu irmão que se colocava em locais estratégicos para eu fotografar aquilo que realmente me interessava. Os ciganos não sei porquê, não gostam muito de ser fotografados ou, ainda menos, que tirem fotografias às suas companheiras...
Esta tela, cujo tema e resultado são aparentemente tão diferentes de “Discoteca” , foi na sua execução, muito semelhante.
A pintura base aplicada é o cadmium yellow, para todas as cores terem o brilho do sol e a tela respirar Verão por todos os poros. Não precisava de roxos, por isso o laranja como base não foi necessário.
O céu, o sol, a saia da vendedora, os eucaliptos, garantiram-me os necessários contrastes com as cores primárias e complementares, para a cena ter a vivacidade electrizante que o local transmite ao mais indiferente.
Espero que o cheiro dos animais, das bifanas e dos couratos, misturados com a poeira que paira no ar, não afaste os menos sensíveis a estes prazeres típicos da região caramela.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

DANÇA DO AMOR


Discoteca Acrílico sobre tela (33X41)

Bom Ano Novo!
Estive a procurar no meu arquivo uma tela para ilustrar as palavras que queria escrever, neste primeiro dia de 2008. Escolhi esta... Assinala momentos de descontracção, do prazer de dançar, de ouvir música, de convívio...
A cor base com que cobri a tela foi uma mistura de amarelo com laranja, com o objectivo de salientar as suas complementares, o roxo e o azul, que iria utilizar nas sombras. Os verdes e vermelhos criam os contrastes agressivos que pretendia para o ambiente. A cor base, que fica a respirar por toda a tela, julgo que harmoniza o conjunto, dando o toque final de suavidade, como se o amor pairasse no ar...
Espero que os meus amigos também sintam o seu perfume!